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Dionísio Iniciação

terça-feira 29 de março de 2022

    

Tradução anotada em português por Antonio Carneiro, da versão francesa de M. de Gandillac  
A Hierarquia Eclesial
Capítulo 6

I Das ordens que formam os iniciados [1]

1. Tais são então as ordens sacerdotais, suas funções, seus poderes, suas operações, suas consagrações. É preciso descrever agora as três ordens que formam os iniciados que lhes são subordinados [2].

Dizemos então que a ordem dos purificados é constituída pela multidão de todos que são excluídos do santo ministério e das operações sacramentais e as quais já foram mencionadas, de início aqueles que os ministros [3] ainda não acabaram de instruir e de formar de modo que o ensinamento das Escrituras Santas, como um parteiro, fez nascer a vida neles; em seguida vem aqueles que continuam a receber   o excelente ensino das Escrituras que deve lhes trazer para a santa vida de onde eles se separaram; pois os covardes que se impressionam ainda com os espantalhos do adversário   e que o poder das Escrituras Santas está em vias de se afirmar  , após eles, aqueles que ainda estão sobre a via que lhes fará passar do pecado   as operações da santidade  ; enfim aqueles que, ainda que convertidos, não estão ainda enraizados de maneira perfeitamente pura nos hábitos divinos e imutáveis.

Tais são as ordens que formam os purificados, submetidos ao poder parturiense e purificador dos ministros. Graça  , com efeito, aos poderes sagrados, os ministros os santificam de modo que perfeitamente purificados, possam aceder à contemplação   iluminadora e à comunhão dos sacramentos os mais capazes de iluminar.

2. A ordem intermediária se compõem daqueles que contemplam certos mistérios e que, perfeitamente purificados, entram em comunhão com esses mistérios na medida de suas forças. Esta ordem foi confiada aos sacrificadores [4] a fim de que eles se iluminassem. Está claro, com efeito, creio, que, purificados de toda mácula profana, tendo fundado sua inteligência   sobre bases santas e imutáveis, os membros desta ordem se elevam pelo intermédio dos sacrificadores até a possessão estável da faculdade contemplativa; que eles participem tanto quanto puderem nos diviníssimos símbolos; que estas contemplações e estas comunhões os preencham de uma alegria   totalmente sacra; que eles se elevem em fim à medida de suas forças e graças à seus poderes de ascensão   espiritual até o amor divino   dos mistérios os quais eles possuem já o conhecimento.

Esta ordem, eu a chamo de povo santo, pois está submissa à uma purificação total e agora é digna de se iniciar   santamente e de comungar, tanto quanto possa fazer sem sacrilégio, aos mais luminosos sacramentos.

3. Mas, de todas as ordens de iniciados a mais elevada é a santa legião de monges. Ela é inteiramente purificada de toda mácula. Nada limita sua liberdade de ação, que é inteira e sem mistura. Tanto quanto ela possa sem sacrilégio, ter sido admitida à contemplação intelectual e À comunhão de todos os mistérios sagrados. Submetida aos poderes aperfeiçoadores dos grandes padres 5 , esses homens de Deus  , cujas iluminação e tradições hierárquicas os iniciam segundo suas aptidões às santas operações sacramentais, ele se eleva graça à este conhecimento sagrado   e segundo seus próprios méritos até a mais alta perfeição. É porque nossos divinos mestres, julgam esses homens dignos de portar um título santo, lhes chamam tanto de servidores quanto de monges, porque eles se exercem um modo puro o culto, isto é, o serviço de Deus, e porque suas vidas longe de ser divididas, permanecem perfeitamente uma, porque eles se unificam eles-mesmos por um santo recolhimento que exclui todo divertimento de modo à tender em direção   à unidade   de uma conduta de acordo   com Deus e rumo à perfeição do amor divino. Por isso, as instituições sagradas lhes outorgaram uma graça que os aperfeiçoa e os julgam dignos de uma certa invocação   consagratoria, que não pertence ao grande padre   [5] (o qual intervem somente para conferir as ordenações sacerdotais), mas sim aos santos sacrificadores que são encarregados desse rito secundário da liturgia hierárquica.

II Mistério da consagração   monacal.

O sacrificador fica de pé diante do altar dos divinos sacrifícios, pronunciando as palavras sagradas da consagração monacal. De pé atrás do sacrificador, o iniciado não flexiona nem os dois   joelhos nem um dos joelhos; não se impõe sobre sua cabeça as Escrituras que contem o depósito da Revelação divina. Ele se contenta de ficar de pé diante do sacrificador quando este último pronuncia as palavras que misteriosamente lhe consagram o estado   monacal. Tendo acabado   esta consagração, o sacrificador 4 se aproxima do iniciado. Ele lhe pede de início que ele renuncie, não somente realizar, mas também à imaginar tudo o que poderia introduzir a divisão   em sua vida. Ele lhe recorda enseguida as regras de uma vida plenamente perfeita, afirmando publicamente que lhe necessitará ultrapassar todas as virtudes de uma existência medíocre. Quando o iniciado formalmente subscreve seus compromissos, o sacrificador marca   o sinal da cruz, depois lhe corta os cabelos invocando as três Pessoas da divina Beatitude   [6].

Tendo em seguida despojado inteiramente de suas vestes, lhe impõe um novo hábito [7]. Seguido enfim por todos os outros sacrificadores presentes à cerimônia, lhe dá o beijo da paz   [8] e lhe confere o poder de tomar parte nos mistérios da Tearquia [9].

  • Dionisio Contemplatio - DA CONTEMPLAÇÃO

[1Neste capítulo se explica o rito da tonsura e profissão monástica. Cf. R.Roques, Elements pour une théologie monastique selon Denys l’Areopagyte: "Théologie" 49 (1961) — 283-314. Resume o tema das ordenações e logo trata das purificações dos anjos.

[2As três ordens inferiores: penitentes, possessos e catecúmenos. A estes são chamados de "não-iniciados". Os iniciados (ou batizados) foram já classificados conforme o modo geral da triple via: purgativa, iluminativa e de perfeição.

[3"diáconos" na tradução espanhola

[4"sacerdotes" na tradução espanhola.

[5"bispo" na tradução espanhola.

[6Neste capítulo se explica o significado da tonsura. A invocação da Santíssima Trindade, como nos demais sacramentos, equipara o sacramental da tonsura monacal com os demais sacramentos.

[7A mudança de vestimentas, ou melhor, a imposição do hábito, como é costume dizer, tem um valor simbólico de conversão para vida perfeita. Cerimônia na mesma linha do batismo, donde também tem simbolicamente mudança de vestes. Expressão de que a vida de monje, forma visível de vida perfeita, é consequência lógica do batismo, chamada de semente de perfeição cristã.

[8O beijo da paz, tal como interpreta o texto em continuação, é outro signo mediante o qual a tonsura monacal e a tomada de hábito se equiparam praticamente à ordenação sacerdotal.

[9À cerimônia que teve lugar depois das leituras, segue a Eucaristia. O cerimonial da "consagração" de um monge nos faz ver duas coisas: antes de tudo, o desenvolvimento da vida monástica que supõe o autor desta obra. O qual era um fato em fins do século V e sobretudo no VI no Oriente bizantino e ainda no Ocidente, por exemplo, na Irlanda. Aliás, isto faz pensar que o autor foi um monge pelo realce que dá à profissão monástica. Praticamente, toda sua obra parece concebida em função da vida religiosa, "estado de perfeição" individual em comunidade conventual como é o bispo na comunidade de todos os "iniciados" ou batizados.