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O Pensamento Vivo de Buda

Coomaraswamy (PVB:56-58) – Buda - Purificação

A Doutrina de Buda

quinta-feira 15 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

«A»pureza  " não se atinge pela fé, nem a audição  , nem o conhecimento, nem a ética, nem a ação: mas ela não se atinge também sem elas (Suttanipata 839); em outros termos, a formação moral é absolutamente indispensável, mas em si ela não traz a perfeição.

    

Isto nos leva a considerar a doutrina   da «pureza   do Daimon  » (yakkassa suddhi). Não nos importemos com o fato que os gênios possam ser múltiplos, da mesma maneira que outras tradições conhecem uma multiplicidade de outros espíritos além do Espírito  ; admitiremos que o Daimon por excelência (sânscrito yaksha) fora, a princípio, e era ainda nos Upanixades  , Brahma  : este Brahma que é ao mesmo tempo transcendente, e, como o «Eu do eu», imanente. Os próprios Sakyas tinham sido os adoradores do Yakkha Sakyavardhana, que mui provavelmente não passa da natureza «sempre fecunda». No budismo  , Buda tão frequentemente qualificado de «Tornado Brahma» (brahma-bhuta), é também chamado um Yakkha, um Daimon, do qual falamos de passagem sobre a «pureza». Buda é «não-contaminado» (anupalitto), totalmente «expirado», chegado ao termo (attha-gata, como o predizia o nome que lhe deram, Siddhartha), puro (suddho), imutável   (anejo), sem desejo (Suttanipata 478; cf. Majjhima-Nikaya I. 386, buddhassa... ahuneyycissa yakhassa); «Tal é a pureza do Daimon, ele que é o Descobridor da Verdade tem direito à oferenda»; ele é o Daimon ahuneyya «a quem se deve apresentar a oferenda do sacrifício (Samyutta Nikaya I, 32; Majjhima-Nikaya I, 386; Suttanipata 478). Enquanto que todas as existências se mantêm pelo»alimento«(físico ou mental  ) (Digha-Nikaya m, 211) e com ele se deliciam, pergunta-se»qual é então o nome deste Daimon que não encontra prazer no alimento?«(Samyutta Nikaya I, 32; cf. Suttanipata 508). Isto lembra exatamente a pergunta:»Não me dirás quem é?«e a resposta   de Sócrates  :»Se te dissesse seu nome, tu não o conhecerias«; aliás, na tradição   hindu e em muitas outras»Quem?«, é o nome mais apropriado do Deus   que é o»Eu de todas as existências«, que não veio de parte alguma, que jamais se tornou alguém. Este»Eu de todos os seres«é o Sol  ;»não o sol que todos podem ver, mas o Sol que poucos conhecem pelo Espírito«(arepassa, isto é, anupalitto). É essa uma das numerosas razões para assimilar Buda (brahmabhuta, também chamado»o Olho que está no inundo«e»cujo nome é verdade«) a esta»Luz das luzes«, este»Sol dos homens".

O que nos ocupa no momento é a expressão   «não contaminado». Explicitamente ou implicitamente, tanto nos textos búdicos ou pré-búdicos (onde deparamos ainda com o «Sol» «loto único do céu») a alusão metafórica se refere à pureza do loto que «não é molhado pela água» acima da qual flutua. Buda, igualmente «não é maculado pelos contatos humanos» (Suttanipata] 456; cf. 5«. IV, 180) ; não maculado pelo mundo (Anguttara-Nikaya III, 347) nem por todas as coisas do inundo (Anguttara-Nikaya IV, 71). O que fica assim explícito, projeta uma luz sobre a natureza do fim que Buda e outros Homens Perfeitos procuraram e atingiram, Imagina-se demasiadamente que a noção   de um fim»além do bem e do mal«é de origem moderna. Ao contrário, ela se apresenta não somente nos textos hindus, mas também islâmicos e cristãos, faz parte da diferenciação normal entre a vida ativa e a contemplativa: a virtude é essencial para a primeira, dispositiva somente para a segunda, cuja perfeição é precisamente o fim último do homem  , isto é, a contemplação   beatífica da Verdade. É uma ideia que é repetida muitas vezes nos textos budistas: aquilo de que o Homem Perfeito   não é contaminado, não é somente o mal ou o vício, é também o bem e a virtude. Muitos textos o dizem em termos próprios:»não contaminado, seja pela virtude, seja pelo vício, o eu   rejeitado, pois nenhuma ação é doravante necessária aqui«(Suttanipata 790);»aquele que fugiu dos laços seja da virtude, seja do vício, que é sem mágoas, ao qual nenhuma poeira adere, aquele que é puro, é a ele que chamo um verdadeiro brâmane«(Dhammapada 412), isto é, um Arahant. Ainda mais notável é a parábola da balsa:»Abandonai o bem e.com mais razão ainda, o mal; aquele que atingiu a outra margem não precisa de balsas«(Majjhima-Nikaya I, 135). Temos uma analogia   perfeita na frase de Santo Agostinho  :»Que ele não mais se sirva da Lei como meio de conseguir quando conseguiu«(De spir. et lit. 16) e aquela de Mestre Eckhart  :»Atingida a outra não preciso mais de nau«; o mesmo autor diz também:»Olhai a alma   divorciada do que quer que seja... não deixando mais traço nem de vício nem de virtude«.»A «pureza» não se atinge pela fé, nem a audição  , nem o conhecimento, nem a ética, nem a ação: mas ela não se atinge também sem elas (Suttanipata 839); em outros termos, a formação moral é absolutamente indispensável, mas em si ela não traz a perfeição. Há regras de conduta estabelecidas para os chefes de famílias e outras para os religiosos: estas últimas, bem entendido, são mais severas, mas elas nada têm de excessivo: as torturas do corpo são severamente condenadas. Os religiosos que tinham cometido uma falta (é necessário compreender bem que alguns quiseram entrar na Ordem   por razões indignas) podiam ser citados e censurados publicamente diante da assembleia   dos monges, e expulsos no caso de faltas graves. Ao contrário, os monges mendicantes não estavam então’, mais do que hoje, aliás, ligados por laços inquebrantáveis; eram livres de regressar à vida familiar quando o quisessem; no máximo eles se expunham a que se lhes censurassem sua fraqueza  .


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