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O Pensamento Vivo de Buda

Coomaraswamy (PVB:42-45) – Buda e a questão do «eu»

A Doutrina de Buda

quinta-feira 15 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

Se constatamos que tudo é fluido... constatar-se-á que a individualidade e a falsidade   são apenas uma única e mesma coisa...

    

Ary Vasconcelos

«A alma   é vosso maior inimigo  » [1]. «Se não tivesse seus empecilhos, quem ousaria dizer»sou   eu« [2]. O eu   é a raiz, a árvore e os ramos de todos os males de nossa queda [3].»É impossível captar duas vezes a essência   de qualquer coisa mortal  .. . num único e mesmo instante   ela chega e se dissipa« [4]. Poder-se-ia multiplicar as citações deste gênero  . O que menos se sabe, é que muitos naturalistas e psicólogos modernos chegaram às mesmas conclusões.» O naturalista sustenta que os estados e os fatos ditos mentais existem somente onde se encontram certas organizações de coisas físicas... (e) que eles não são apresentados por estas coisas enquanto elas não são assim organizadas. O objeto organizado só faz manifestar as reações de seus componentes... (ele) não é um elemento   adicional que. . . dirige. . . as reações de suas partes organizadas«. Até lá, é de modo idêntico que o naturalista e o budista interpretam as reações do»objeto organizado«, mas o primeiro se identifica ao objeto que rege [5], enquanto que o budista assegura que não há objeto que eu possa chamar»meu Eu«. Ao contrário, os psicólogos, por uma extrapolação do ego, fazem ainda, como os budistas que encaram a possibilidade de alguma outra coisa que o ego, que pode sofrer   uma»beatitude   infinita«.»Se constatamos que tudo é fluido... constatar-se-á que a individualidade e a falsidade   são apenas uma única e mesma coisa«; donde este corolário como na doutrina   do Buda   Anatta, que»nós«somos diversos da nossa individualidade.»Nesta individualidade de cada um de nós, este «eu» que é tradicional (isto é, habitual) colocarmos em evidência. . . temos a mãe   de todas as ilusões;... o drama   desta ilusão   da individualidade é que ela conduz ao isolamento, ao temor, à suspeita quase paranoica, a ódios absolutamente inúteis«.»Cada um seria infinitamente mais feliz se aceitasse a perda de seu «eu individual» e, como o diz Buda, não teria mais preocupações com aquilo que não tem realidade«.»Na época do racionalismo científico, que se tornara a psique? A palavra se tornara sinônimo de consciência  ... não havia psique fora do ego. .. Quando o destino da Europa a fizera participar de uma guerra de quatro anos de um horror sem igual... ninguém compreendeu que o homem   europeu estava possuído   por alguma coisa que o despojava de seu livre arbítrio  .«Mas, além, e acima deste ego, há uma Ipseidade  »em torno da qual ele gira, mais ou menos como a terra   gira em torno do Sol«; todavia,»desta relação nada não é conhecível intelectualmente, porque nada podemos dizer do conteúdo da Ipseidade« [6]. Da Ipseidade, que nos diz o Budismo? — «Isso não é meu Eu» (na me so atta); palavra que, com a expressão   «não-Ipseidade» (Buda Anatta) servindo para qualificar o mundo e todas as «coisas» (sabbe dhamma   anatta) [7], está na base da opinião   errônea que o budismo «nega (não somente o eu mas também) o Eu». Mas basta considerar os termos em boa lógica   para se perceber que eles implicam a realidade de um -Eu, o qual não é nem uma parte nem a totalidade   das «coisas» que se declara não lhe atribuir. Como o diz Santo Tomás de Aquino  , «As coisas primárias e simples são definidas por negações: um ponto, por exemplo, se define»o que não tem partes«. Dante   faz notar que há»coisas que o nosso intelecto   não poderia contemplar... só podemos compreender sua natureza formulando negações a seu respeito«. Era também a atitude da antiga filosofia hindu no seio da qual o budismo nasceu: qualquer coisa que se possa dizer do Eu, não é»assim«. Reconhecer   que»nada de verdadeiro poderia ser afirmado a respeito de Deus  ", não é certamente negar sua essência!

Quando se insiste na questão «Existe um Eu?» Buda recusa responder sim ou não. Dizer sim seria participar do erro «eternalista»; dizer não, do erro «aniquilacionista» (Anguttara-Nikaya IV, 400-401). Da mesma forma, quando surge a questão do destino no além de um Buda, um Ipseidade, do Homem em Si, ele responde que não se lhe poderia aplicar qualquer dos termos «torna-se» (hoti) ou «não se torna»; nem se torna, nem não se torna; «torna-se ao mesmo tempo que não se torna». Pois qualquer uma destas proposições implicaria a identificação de Buda com tudo ou parte dos cinco   fatores da personalidade; todo porvir implica uma modalidade: ora, Buda é exterior a todo o modo. É preciso notar que a questão está sempre redigida em termos de «porvir», não de ser. A lógica da linguagem só se aplica às coisas fenomênicas (Digha-Nikaya II, 63): Ora, o Ipseidade não está contaminado por nenhuma destas «coisas»; não há expressões verbais para aquele cujo eu não mais existe; aquele que se «recolheu em si mesmo» [8] não mais se encontra em nenhuma categoria (Suttanipata 1074, 1076). Todavia afirma-se ainda que Buda «é» (atthi), se bem que ele não seja visível   aqui ou lá«; e nega-se que um Ipseidade»não seja«além da morte. Mas se verdadeiramente não fica absolutamente nada quando o eu não existe mais, somos forçados a nos perguntar de que uma imortalidade poderia ser o atributo? Querer reduzir uma realidade à nulidade do»filho da mulher estéril«só conduz ao absurdo, ou ao ininteligível; aliás Buda, repudiando as doutrinas»aniquilacionistas«que heréticos de seu tempo lhe atribuíam, nega expressamente ter jamais ensinado a destruição de nada de real (sato sattasa = ontos on) (Majjhima-Nikaya I 137, 140).»Bem que existe, diz ele, um não-nascido  , não-tornado, não-feito (akatam) [9], não composto (asamkhatam) [10] e, se não existisse, não haveria evasão possível para o que é nascido, tornado, feito e composto«(isto é, do mundo) (Vd. 80)»Tu és o Conhecedor daquilo que jamais foi feito (akatannu), ó Brahman  , tendo conhecido o declínio de todas as coisas compostas".

Original

“The soul is the greatest of your enemies.” [11] “Were it not for the shackle, who would say ‘I am I’ ?” [12] “Self is the root, the tree, and branches of all the evils of our fallen state” [13]; “it is impossible to lay hold twice of the essence of anything moral ... at one and the same moment it arrives and is dissolved” [14]—such citations could be multiplied idefinitely. It is less often realized that many modern naturalists and psychologists have reached the same conclusions. “The naturalist ... maintains that the states and events called mental exist only [20] when certain organizations of physical things also occur . . . [and] are not exhibited by those things unless they are so organized .... The structured object is simply manifesting the behaviour of its constituents . . .[it] is not an additional thing which . . . controls . . .the behaviour of its organized parts.” The naturalist’s and the Buddhist interpretation of the behaviour of the ‘’structured object” are so far identical: but whereas the former identifies himself with the behaving object, [15] the Buddhist insists that there is no object that can properly be called “my Self.” The psychologists, on the other hand, prescinding from the Ego, still, like the Buddhist, leave room for something other than the Ego and that can experience an “infinite happiness.” “When we see that all is fluid ... it will appear that individuality and falsity are one and the same,”—the direct implication being, as in the anatta doctrine, that “we” are other than our individuality. “In the traditionally [sc. customarily] emphasized individuality of each one of us, ‘myself’... we have the very mother of illusions . . . [and] the tragedy of this delusion of individuality is that it leads to isolation, fear, paranoid suspicion, and wholly unnecessary hatreds;” “any person would be infinitely happier if he could accept the loss of his ‘individual self’,”—as the Buddha puts it, he does not worry about what is unreal. “In the epoch of scientific rationalism; what was the psyche ? It had become synonymous with consciousness . . . there was no psyche outside the ego .... When the fate of Europe carried it into a four-years’ war of stupendous horror ... no one realized that European man was possessed by something that robbed him of his free choice;” but over and above this Ego there is Self “around which it revolves, very much as the earth rotates about the sun,” although “in this relation there is nothing knowable in the intellectual sense  , because we can say nothing of the contents of the Self” [16].

What has Buddhism to say of the Self ? “That’s not my Self” (na me so atta); this, and the term “non-Self-isness” (anatta) predicated [21] of the world and all “things” (sabbe dhamma anatta) [17] have formed the basis of the mistaken view that Buddhism “denies [not merely the self but also] the Self.” But a moment’s consideration of the logic of the words will show that they assume the reality of a Self that is not any one or all of the “things” that are denied of it. As St Thomas Aquinas says, “primary and simple things are defined by negations; as, for instance, a point is defined as that which has no parts;” and Dante remarks that there are “certain things which our intellect cannot behold ... we cannot understand what they are except by denying things of them.” This was the position of the older Indian philosophy in which Buddhism originated: whatever can be said of the Self is “Not so.” To acknowledge that “nothing true can be said of God” is certainly not to deny his essence !

When the question is pressed, Is there a Self, the Buddha refuses to answer “Yes” or “No” ; to say “Yes” would involve the “eternalist” error, to say “No” the “annihilationist” error (Samyutta-Nikaya, IV. 400-401). And similarly, when the postmortem destiny of a Buddha, Arahant, or Very Man arises, he says that none of the terms “becomes” (hoti) or “does not become” or “neither becomes nor does not become” or “both becomes and does not become” apply. Any one of these propositions would involve an identification of the Buddha with some or all of the five factors of personality; all becoming implies modality, but a Buddha is not in any mode. It should be emphasized that the question is always asked in terms of becoming, not in terms of being. The logic of language only applies to phenomenal things (Digha-Nikaya, II. 63), and the Arahant is uncontaminated by any oF these “things”: there are no word-ways for one whose self is no more; one “gone home” is no longer in any category (Suttanipata, 1074, 1076). Nevertheless it is also said that the Buddha “is (atthi), though he cannot be seen “here or there,’’ and denied that an Arahant “is not” after death. If, indeed, absolutely nothing remains when the self is no more, we could not but ask, Of what is an immortality predicated ? Any reduction of a reality to the nothingness of “the son of a barren woman” would be meaningless and unintelligible; and, in fact, the Buddha in repudiating the “annihilationist” doctrines that were attributed to him by some contemporary heretics expressly denies that he ever taught the destruction of anything real (sato sattassa) (Majjhima-Nikaya, I. 137, 140). There [22] is, he says, “an unborn, un-become, unmade (akatam) [18] incomposite (asamkhatam),a and were there not, there would be no escape from the born, the become, the made and the composite (world)” (Udana, 80): “knower of ufhat was never made (akatanhu) art thou, O Brahman, having known the waning away of all composite things.”


Ver online : EU


[1Algazel - Al Ghazali, Al Risaltal Laiuniyya, cap. II.

[2Rumi; Mathnawi, l, 2449.

[3William Law, Hobhouse, p. 219.

[4Timeu, 28 Anguttara-Nikaya Cf. Crátilo, 440. Plutarco, Moralia 392 B. Para a doutrina budista do»instante«(khana) em que as coisas nascem, amadurecem e chegam ao fim, ver Visuddhimagga I, 239, e os desenvolvimentos da ideia nos textos mahayanicos.

[5Identificação que volta à proposição animista:»Penso, logo existo«, e implica o conceito ininteligível de um único agente que pode querer coisas contrárias .num único e mesmo momento. Pareceria que, para permanecer lógico, o positivista devesse negar a possibilidade de toda a direção de si mesmo; é talvez o caso.

[6Os naturalistas e os psicólogos que acabamos de citar são: Dewey, Hooke e Vagel; Charles Peirce, H. S. Sullimam, E. E. Haddley, C. J. Jung. Vê-se que este último, que fala da»necessidade absoluta de dar um passo além da ciência«é metafísico sem o querer. Não damos e»stas citações para provar a exatidão da análise budista, mas com o único intuito que o leitor possa compreender melhor esta última: O provérbio inglês diz: «é comendo o»pudding«que se sabe se ele é bom». As palavras sublinhadas o são pelo autor da presente obra.

[7Idêntico àquela do bramismo: «Dos que são mortais não existe o Eu» (anatma hi martyah, SB. II, 2, 2-3).

[8Atham-gato é um excelente exemplo das numerosas ambiguidades etimológicas apresentadas pelo pali. No caso attham — sânsc. astam, o sentido é aquele de «regressado à casa»; mas no caso atham — sânsc. ar — é preciso entender «tendo realizado seu desígnio, atingido sua finalidade». Uma ambiguidade dêíte gênero não é um transtorno, uma vez que «recolher-se a si mesmo» e «atingir seu fim» vem a dar no mesmo.

[9O «mundo não feito» (Brahmaloka) dos Upanixades.

[10«Incomposto», isto é, sem origem, desenvolvimento ou mutação (Anguttara-Nikaya I, 152); o Nirvana (MU, 270); o Dhama (5. IV. 359). Por outra parte, os «estados» contemplativos, mesmo os mais elevados, são compostos: e é destes próprios estados sublimes que existe uma «evasão derradeira».

[11Al-Ghazall, Al-Risalat al-Laduniyya, ch. II.

[12Rumi, Mathnawi; 1.2449.

[13W. Law, Hobhouse, p. 219.

[14Timaeus, 28 A, cf. Cratylus, 440 : Plutarch, Moralia, 392 B. For the Buddhist doctrine of the “moment” (khana) in which things originate, mature, and cease, cf. Vis., I. 239, and the fuller development in the Mahayana.

[15Such an identification reverts to the animistic proposition, “I think, therefore I am,” and involves the unintelligible concept of a single agent that can will opposite things at one and the same time. The logical positivist ought to deny the possibility of any “self-control,”—perhaps he does.

[16The naturalists and psychologists cited are Dewey, Hook and Nagel, Charles Peirce, H.S. Sullivan, E.E. Hadley, and C.G. Jung. It will be seen that the latter, who speaks of the “absolute necessity of a step beyond science,” is a metaphysician in spite of himself. The citations are not made by way of proving the truth of the Buddhist analysis, but to help the reader to understand it; the proof of the pudding will be in the eating. (The italics are mine).

[17Identical with the Brahmanical “of those who are mortal, there is no Self”, (anatma hi martyah, SB., II. 2. 2. 3).

[18The “unmade world” (Brahmaloka) of the Upanishads.