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Gregorio de Nissa Mana

terça-feira 29 de março de 2022

Excertos da tradução e seleção de C.F  . Gomes

Outra coisa que não se deve deixar passar sem refletir: depois da travessia do mar, depois que a água se fez doce durante a viagem (símbolo do progresso na virtude), depois do delicioso período em que os hebreus encontram as fontes e as palmeiras, e são dessedentados junto à rocha, começam a faltar as previsões trazidas do Egito. Nessa situação, carentes de todo alimento estranho, chega-lhes do céu um alimento a uma vez variegado e o mesmo. Sua aparência é sempre a mesma, mas as qualidades são várias, " adaptando-se a cada um conforme seu desejo".

Que aprendemos disso? As purificações pelas quais devemos purificar-nos da vida egípcia e estranha, esvaziando a alma de todo alimento impuro, preparado pelos estranhos, para podermos receber com alma pura o manjar que desce do céu. Este sustento, não é o trabalho da terra que o semeia e produz para nós, é um pão que se obtém pronto e sem labor: desce do céu e é encontrado sobre o solo. Percebes qual o verdadeiro manjar figurado por tal episódio. O pão, descido do céu, não é algo de incorpóreo: como haveria de nutrir nosso corpo algo de incorpóreo? É um pão corpóreo. Mas a matéria, de que consta, não se produz pela semeadura e pelo trabalho do homem; a terra, sem sofrer mudança alguma, se vê coberta do divino alimento, feito para os famintos. O mistério da natividade virginal, eis o que está ensinando antecipadamente por tal milagre! O pão, não produzido pela terra, é pois o Verbo, que adapta seu efeito às disposições dos que o recebem, graças à diversidade de suas qualidades. Realmente, ele sabe ser não só pão, sabe tornar-se carne, legume, e tudo que desejem os que o recebem: ensina-o Paulo, o divino apóstolo  , o qual nos oferece em suas obras esse alimento, tornando sua própria palavra carne sólida para os perfeitos, legume para os fracos, leite para os que são como as criancinhas.

O que a história (bíblica) relata sobre o maná é instrutivo para a vida espiritual. Ali, cada um pode recolher a porção que lhe interessa, sem que a diferença de força dos que recolhem acarrete excesso eu deficiência no satisfazer às suas necessidades. Com isto, penso eu, um conselho vem dado de modo geral aos que procuram sua subsistência nas coisas materiais: não exceder os limites das próprias necessidades, saber que há apenas uma medida para todos no uso dessas coisas, e ela é o sustento quotidiano. Se te serves de mais do que o necessário, teu ventre não irá ultrapassar sua capacidade, não poderá dilatar-se com o excesso. Assim, como diz a história (bíblica), aquele que tomava a mais não levava vantagem, pois não tinha onde pôr o supérfluo; e o que tomava menos não ficava frustrado, pois tomava segundo a medida de sua necessidade.

Quanto aos que deixam de reserva o supérfluo, vemos na história que este se estragava: a Escritura brada assim aos ambiciosos que todo o excedente das necessidades, acumulado por instinto de entesouramento, se transformará no dia seguinte, isto é, na vida futura, em verme para seu possuidor. Quem me lê compreende facilmente: o verme aqui designa aquele outro que não acaba e que alimenta a concupiscência.

Ficava sem estragar-se apenas o que se reservara para o sábado. Percebemos um conselho, o de usarmos de liberdade na aquisição das coisas que não sofrem a corrupção: elas se tornarão úteis para nós quando, após esta vida de preparação, isto é, após a morte, estivermos na impossibilidade de adquirir mais. Com efeito, o dia anterior ao sábado é, na realidade, conforme o nome indica, preparação (parasceve) do sábado: a parasceve é a vida presente, durante a qual nós armazenamos os bens da vida futura, na qual nenhuma das atividades atualmente possíveis se exercerá: agricultura, comércio, vida militar etc. Nós viveremos então num lazer perfeito de todas estas atividades, recolheremos os frutos das sementes que tivermos plantado durante a vida atual, incorruptíveis se tiverem sido boas sementes, perecíveis e miseráveis se tiverem sido assim os frutos dos trabalhos atuais. "Quem semeia no Espírito, diz a Escritura, recolherá do Espírito a vida eterna; quem semeia na carne recolherá da carne a corrupção". Mas só a preparação do que é bom vem chamada propriamente parasceve, e é sancionada como tal pela Lei, que deixa de lado os bens incorruptíveis; para estes não há parasceve, nem a realidade nem o nome. Pois não merece o nome de preparação o que se termina na privação dos bens, e sim até o de falta de preparação. Portanto, a história prescreve aos homens a única preparação, a que consiste nas boas obras, deixando supor por seu silêncio, aos capazes de entender, que existe outra preparação. Ocorre aqui algo de semelhante com a conscrição militar: o comandante do exército começa por dar o soldo, depois dará o sinal para a guerra. Assim também os soldados engajados na luta pela virtude recebem inicialmente seu místico soldo, e só depois se engajam na guerra contra os estrangeiros, já então sob a conduta de Jesus, o sucessor de Moisés.


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