Página inicial > Medievo - Renascença > IBN ARABI > Gilis: Ibn Arabi - Peregrinagem

DOUTRINA INICIÁTICA DA PEREGRINAÇÃO

Gilis: Ibn Arabi - Peregrinagem

Apresentação

quarta-feira 10 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

GILIS  , Charles-André. Le Livre des chatons des sagesses. Les Éditions AI-Bouraq Beyrouth-Liban

    

Apesar da autoridade   especial que aí está associada, a obra de René Guénon não constitui no entanto nossa fonte de referência principal. A significação da peregrinação à Casa   de Alá, e sobretudo o ensinamento espiritual do qual é o suporte são, desde o Profeta  , indissoluvelmente ligados a sua forma islâmica. É portanto aos comentários esotéricos dos representantes do sufismo que é preciso se dirigir desta feita para encontrar indicações elaboradas e detalhadas concernentes aos diferentes ritos que comporta. A este respeito, aqueles de Ibn Arabi   revestem-se a nossos olhos de uma importância excepcional. Os caso iniciático daquele que é o Xeique al-Akbar, o «maior dos Mestres», mas também o «Selo da Santidade   Maometana» apresenta com efeito afinidades certas com o sentido simbólico da peregrinação, de suas Estações e de seus lugares consagrados. Assim vai também para sua obra mais importante, pelo menos entre aquelas que estão atualmente acessíveis, as Futuhat al-Makkiyya.

Este título por si mesmo   suficientemente significativo, posto que faz referência a «revelações de Meca». No curso do primeiro capítulo, Ibn Arabi conta como a ciência sagrada que incluiu em sua obra lhe foi comunicada por meio de uma teofania   de um caráter muito especial, enquanto ele «fazia as circunvoluções rituais ao redor do Templo   Antigo (a Caaba  ), e fazia recitando as fórmulas de glorificação, de louvor, de magnificação e de atestação suprema», e, de uma maneira mais precisa, em um momento onde «permanecia em êxtase próximo da Pedra   Negra». Esta teofania tinha a aparência de um Jovem Homem   que encontrou «fazendo, ele também, o rito circular». O que nos interessa bastante ainda, é que em relação com esta fonte de inspiração   refletida no intitulado mesmo das Futuhat, Xeique al-Akbar esclarece no capítulo inicial de «entretimentos divinos» e de «ensinamentos» «que mencionarei, diz ele, no capítulo da peregrinação e da Meca, com todo um conjunto   de mistérios».

Uma tal precisão é digna de nota pois sublinha uma certa excelência deste capítulo no conjunto da obra. Efetivamente, os desenvolvimentos que aí se encontram a respeito dos diferentes ritos que deve cumprir o peregrino   são de uma extrema importância do ponto de vista doutrinal e iniciático; compreendem notadamente alguns textos sobre a doutrina   metafísica   suprema, conhecida com sendo aquela da wahdat al-wujud  , que se pode sem exagero qualificar de fundamentos. Isto é tão verdadeiro que Michel Valsan  , que foi verdadeiramente o fundador dos estudos akbarianos no Ocidente, aconselhava, àqueles que desejavam aprofundar-se nesta doutrina, ler o capítulo das Futuhat tratando da peregrinação, confirmando assim o interesse   excepcional deste estudo.

O capítulo em questão, o 72 da obra, se intitula «A Peregrinação e seus segredos». Apresenta, como todos aqueles que Ibn Arabi consagra aos ritos fundamentais do Islã, as dimensões de um tratado. As questões jurídicas que se colocam são estudadas umas após as outras, frequentemente depois de um breve recordação das opiniões geralmente sustentadas. O Xeique menciona então sua própria posição  , que justifica em utilizando os dados da tradição   e por referência aos aspectos metafísicos correspondentes. Os comentários esotéricos que enuncia assim vão fundo tanto pela própria profundidade quanto pela riqueza  . No entanto, a apresentação do conjunto é frequentemente desconcertante pois as indicações complementares permitindo apreender o sentido de tal ou tal rito estão dispersados em diversos lugares do texto e figuram mesmo algumas vezes sob rubricas outras que aquelas às quais elas se relacionam em realidade.

Uma tal aparência não é fortuita pois Ibn Arabi precisa ele mesmo que a composição de sua obra procede, até nos detalhes, de uma inspiração divina. Ela explica que não nos limitamos a traduzir e a anotar este texto, apesar das desvantagens que um tal método apresentava em princípio; tanto menos que o recurso à obra de Guénon permitia unicamente, assim como dissemos, operar a síntese das indicações fornecidas pelo Xeique al-Akbar, o que implicava que estas sejam integradas em uma apresentação nova. Sob esta reserva, nos esforçamos de tornar de maneira escrupulosamente fiel o texto e as intenções do autor das Futuhat. Para isto fazer, multiplicamos as citações extraídas; frequentemente, as reproduzimos integralmente. As resumir ou as reportar unicamente quanto a seu sentido seria portar atenção   à bendição e a uma certa eficacidade metódica ligadas a sua formulação. Não se deve perder de vista com efeito que os textos têm uma significação essencialmente iniciático e espiritual.

A este respeito, é necessário precisar ainda um ponto muito importante, a saber que o valor   espiritual da peregrinação islâmica é independente da compreensão teórica que se pode ter de seus ritos. E isso, porque a perplexidade, o desconcerto ou simplesmente o embaraço inerentes à complexidade das prescrições e das interdições de todas as espécies às quais os peregrinos devem se conformar comportam elas mesmas uma graça   espiritual e, no caso, iniciática. O Xeique al-Akbar é categórico sobre este ponto: «Na peregrinação, o servidor é dominado pela Estação da servitude (Maqam al-ubudiyya) pelo fato que é submetido a restrições cuja sabedoria   escapa à inteligência   racional. Trata-se, de algum modo, de uma obra de adoração pura, que só se pode realizar com as qualificações da servitude». E ainda: «Alá convoca os peregrinos (na peregrinação) unicamente para experimentá-las e lhe fazer ver aquele que permanece fiel a sua condição de seu servidor. Eis porque, a maior parte das prescrições da peregrinação são obras de adoração às quais não se pode encontrar nem causa   nem significação racional, embora seu sentido possa ser alcançado pelo desvelamento   intuitivo ou as notificações divinas que sobrevêm nos corações dos Conhecedores...».

Inversamente, o ensinamento transmitido pelo Xeique nesta ocasião, e do qual assinalamos a importância no conjunto de sua obra, tem uma dimensão que supera de muito aquele de um simples comentários feito a respeito do sentido dos ritos anuais realizados pela comunidade e concerne em primeiro lugar as diversas modalidades da realização   iniciática simbolizada pela «peregrinação interior». Não mencionamos aqui, longe disso, todos os desenvolvimentos que aí se relacionam, o que teria exigido uma obra de uma outra natureza e de uma amplitude outra.


Ver online : IBN ARABI