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Abade Arsênio

terça-feira 29 de março de 2022

    

Seleção   e tradução de D. Estevão Bettencourt
DO ABADE ARSÊNIO
1. Quando ainda morava no palácio, o Abade Arsênio orca a Deus   dizendo: «Senhor, dirige-me de modo que seja salvo». E desceu a ele uma voz que dizia: «Arsênio, foge dos homens, e serás salvo».

2. O mesmo, tendo-se retirado para a vida solitária, orou de novo, proferindo a mesma prece  . E ouviu uma voz que lhe dizia: «Arsênio, foge, cala-te, está tranquilo, pois estas são as raízes da impecância».

3. Certa vez apresentaram-se os demônios ao Abade Arsênio na cela, atormentando-o. Ora os que lhe serviam, tendo-se aproximado e ficando fora da cela, ouviram-no clamar a Deus e dizer: «õ Deus, não me abandones; nada fiz de bom em tua presença  ; mas, conforme a tua bondade, concede-me lançar o princípio».

4. Diziam a respeito dele que, assim como no palácio ninguém trajava veste   melhor do que ele, assim também na igreja   ninguém se apresentava com veste mais vil do que ele.

5. Disse alguém ao bem-aventurado   Arsênio : «Como é que nós nada temos (de bom) em consequência de tanta erudição e sabedoria  , ao passo que estes, os camponeses e egípcios, possuem tão grandes virtudes?» Respondeu o Abade Arsênio : «Nós pela erudição do mundo nada temos, enquanto estes, os camponeses e egípcios, pelo próprio labor é que adquiriram as virtudes».

6. Certa vez o Abade Arsênio interrogava um ancião egípcio a respeito de seus pensamentos ; outro, vendo-o, perguntou: «Abade Arsênio, como é que tu, que possuis tanta erudição romana e grega, interrogas este campônio a respeito dos teus pensamentos?» Disse-lhe Arsênio: «Possuo, sim, a erudição romana e grega; o alfabeto, porém, deste campônio, ainda não o aprendi».

7. Certa vez o bem-aventurado arcebispo Teófilo, acompanhado de um magistrado, foi ter com o Abade Arsênio. Pedia ao ancião que lhes desse a ouvir   uma palavra. Após breve intervalo   de silêncio  , o ancião respondeu-lhe: «E, se eu vos disser a palavra, guardá-la-eis?» Prometeram guardá-la. Disse-lhes então o ancião: «Onde quer que ouvirdes estar Arsênio, não vos aproximeis de tal lugar» [1].

8. Outra vez, querendo de novo o arcebispo ir ter com ele, mandou primeiro saber se o ancião abriria. Este respondeu-lhe: «Se vieres, abrirei para ti; e, se abrir para ti, hei de abrir para todos; em tal caso, porém, não mais me quedarei aqui». Tendo ouvido isto, disse o arcebispo: «Se é para expulsá-lo que o vou procurar, não mais o irei procurar».

9. Um irmão pediu ao Abade Arsênio que lhe desse a ouvir uma palavra. Disse-lhe o ancião: «Com toda a força que tens, luta   para que a tua labuta interior seja conforme Deus, e vencerás as paixões exteriores».

10. Disse também : «Se procurarmos a Deus, aparecer  -nos-á; e, se o guardarmos, permanecerá conosco».

11. Disse alguém ao Abade Arsênio : «Os meus pensamentos me afligem sugerindo-me : ‘Não podes jejuar nem trabalhar  ; ao menos sai a visitar os doentes, pois isto é caridade’». O ancião, que conhecia as sugestões dos demônios, disse-lhe : «Vai, come, bebe, dorme e não trabalhes; apenas não deixes a cela». Sabia, com efeito, que a perseverança   ña cela coloca o monge   na sua ordem   devida.

12. Dizia o Abade Arsênio que o monge estrangeiro em terra   alheia em nada se deve imiscuir; desta forma encontrará sossego.

13. O Abade Marcos perguntou ao Abade Arsênio: «Por que foges de nós?» Respondeu-lhe o ancião: «Deus sabe que vos amo; não posso, porém, estar com Deus e com os homens. Os milhares e as dezenas de milhares de espíritos supernos têm uma só vontade, enquanto os homens têm muitas vontades. Não posso, por conseguinte, deixar Deus e vir para junto dos homens».

14. Dizia o Abade Daniel, a respeito do Abade Arsênio, que este passava a noite inteira em vigília; quando, ao despontar do dia, por exigência da natureza, chegava a dormitar, dizia ao sono: «Vem, servo   mau!» Então, sentado, dormia um pouquinho, e logo se levantava.

15. Dizia o Abade Arsênio que ao monge basta dormir   uma hora, se, de fato, é um lutador [2].

16 . Diziam os anciãos   que certa vez foram doados aos solitários da Cétia alguns poucos figos secos; já, porém, que não pareciam de valor   nenhum, não mandaram parte ao Abade Arsênio, intencionando poupar-lhe uma ofensa. O ancião, tendo ouvido isto, não compareceu à sinaxe [3], alegando: «Vós me excomungastes, não me fazendo chegar a dádiva   que Deus mandou aos irmãos, por não ser eu digno de a receber  ». Ouviram todos e se edificaram pela humildade   do ancião. O presbítero então foi-lhe buscar os figos, e levou-o com alegria   para a sinaxe.

17. Dizia o Abade Daniel: «Tantos anos permaneceu conosco e somente um tálio [4] de alimento lhe preparávamos por ano; e ainda, quando íamos ter com ele, comíamos desse tálio».

18. O mesmo dizia ainda a respeito do Abade Arsênio que só uma vez por ano mudava a água das folhas de palmeira; fora disto, apenas acrescentava nova água à água usada; de resto, trançava, corda e cozia até a hora sexta. Ora os anciãos exortaram-no, dizendo: «Por que não mudas a água das palmas, já que exala mau odor?» Respondeu-lhes : «Porque, em lugar dos perfumes e aromas de que gozei no mundo, é preciso que eu agora absorva tal cheiro» [5].

19. Contou ainda que, quando o Abade Arsênio ouvia estarem maduras as frutas das diversas árvores, dizia espontaneamente: «Trazei-mas». E provava, uma vez apenas, um pouquinho de cada qual, dando graças a Deus.

20. Certa vez o Abade Arsênio, tendo adoecido na Cétia, sofria a indigência até mesmo de uma camisa de linho. Não tendo recurso para comprá-la, aceitou de alguém uma esmola  , e disse: «Agradeço a ti, Senhor, que me tenham tornado digno de receber uma esmola em teu nome».

21. A respeito dele diziam que tinha a cela afastada à distância de trinta e duas milhas. Não saia com facilidade; outros lhe prestavam os serviços necessários. Depois, porém, que fora devastada a Cétia, saía em prantos e dizia: «O mundo perdeu Roma, e os monges perderam a Cétia !»

22. O Abade Marcos perguntou ao Abade Arsênio: «Não será bom que alguém não tenha em sua cela algum objeto que o console? Pois vi um irmão que possuía pequenas hortaliças e estava a arrancá-las». Respondeu o Abade Arsênio : «É bom, sim ; de acordo, porém, com o temperamento do homem   ; pois, se ele não recobrar forças neste gênero   de vida solitária, voltará a plantar outras coisas» [6].

SEGUE: Abade Arsênio II - II; Abade Arsênio III - III; Abade Arsênio IV - IV



[1Testemunho de humildade e amor da vida retirada.

[2«agonistés» = o atleta simplesmente ou, muitas vezes, o atleta campeão nos jogos públicos.

[3O termo «synaxis» nos Apoftegmas, pode significar tanto oração comum como oração particular. Traduzimo-lo diversamente conforme o sentido exigido pelo contexto. Por «sinaxe» em português entende-se oração comum, muitas vezes acompanhando a celebração da : Eucaristia.

[4Medida feita de folhas de palmeira.

[5Arsênio fôra oficial de alta categoria na corte imperial.

[6O que quer dizer: a privação de todo consolo e recreio meramente humano é prática de virtude, sim, mas deve ser temperada pelas exigências da natureza de cada indivíduo, a fim de que esta não Se esgote por completo e não caia no gênero de vida medíocre.