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Serafim Mensagem

terça-feira 29 de março de 2022

    

Excertos do livro «Instruções Espirituais - Diálogos como Motovilov», trad. de Helena Livramento

Difusão da mensagem

  •  E eu, respondeu o staretz, julgo que, pelo contrário, Deus   vos ajudará a guardar todas estas coisas para sempre, em vossa memória. De outro modo ele não teria sido tão rapidamente tocado pela humilde oração   do miserável Serafim e não teria atendido tão depressa o seu desejo. Além do mais, não é somente a vós que é dado ver a manifestação   desta graça   mas, por vosso intermédio, ao mundo inteiro. Vós mesmo assegurai-vos, sereis útil   a outros.

    Monge   e leigo

    Quanto a nossos estados diferentes, de monge e leigo, não vos preocupeis. Deus procura acima de tudo um coração   cheio de fé nele e em seu Filho   único, em resposta   à qual envia do alto a graça do Espírito Santo  . O Senhor procura um coração repleto de amor por ele e pelo próximo - aí está um trono sobre o qual ele gosta de sentar-se e onde ele aparece na plenitude   de sua glória  . «Meu filho, dá-me o teu coração, e o resto eu te darei por acréscimo» (Pr 23,26). O coração do homem   é capaz de conter o Reino dos Céus  . «Buscai, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça, diz o Senhor a seus discípulos, e todas estas coisas vos serão acrescentadas, pois, Deus, vosso Pai, sabe do que precisais» (Mt   6,33).

    Legitimidade dos bens terrenos

    O Senhor não nos proíbe o gozo dos bens terrenos, e diz ele próprio que, dada a nossa situação   aqui na terra  , deles precisamos para dar tranquilidade   às nossas existências e tornar mais cômodo e fácil o caminho   para a nossa pátria celeste. E o apóstolo   Pedro   acha que nada há melhor no mundo do que a piedade   unida ao contentamento. A Santa Igreja   pede que isso seja dado. Apesar das penas, as desgraças, e as necessidades serem inseparáveis da nossa vida na terra, o Senhor jamais quis que os cuidados e as misérias constituíssem toda a trama dela. E, por isso, pela boca do Apóstolo nos manda carregar os fardos uns dos outros, a fim de obedecer a Cristo   que pessoalmente nos deu o preceito de nos amarmos mutuamente. Reconfortados por esse amor, a caminhada dolorosa pela via estreita que leva à nossa pátria celeste nos será facilitada. Não desceu o Senhor do céu não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida pela redenção de muitos? (Mt 20,28; Mc   10,45).

    Atuai do mesmo modo, amigo de Deus e, consciente da graça da qual fostes visivelmente objeto, comunicai-a a todo o homem desejoso da sua salvação  .

    Atividade   missionária

    «A colheita é grande», diz o Senhor, «mas poucos os operários» (Mt 9,37-38; Lc   10,2). Tendo recebido os dons da graça, somos chamados a trabalhar   colhendo as espigas da salvação do nosso próximo, para os recolhermos no celeiro, em grande número  , no Reino de Deus, a fim de que produzam seus frutos, uns trinta, outros sessenta e outros cem. Estejamos atentos para não sermos condenados com o servo   preguiçoso que enterrou o dinheiro   a ele confiado, mas tratemos de imitar os servos fiéis que devolveram ao Mestre um, em vez de dois   taientos, quatro, e o outro, em vez de cinco   talentos, dez. Quanto à misericórdia divina, não se pode duvidar dela: vede vós mesmo como as palavras de Deus, ditas por um profeta, se realizaram por nós. «Sou  , por acaso, Deus apenas de perto...» (Jr 23,23).

    O poder da fé

    Mal eu, miserável, fiz o sinal da cruz, mal no meu coração desejei que o Senhor nos tornasse dignos de ver a sua misericórdia, em toda a sua plenitude e, imediatamente, ele se apressou a atender o meu desejo. Não o digo para me glorificar nem para vos mostrar a minha importância e vos tornar ciumento ou para que penseis que é pelo fato de eu ser monge enquanto sois leigo, amigo de Deus, não. «O Senhor está próximo daqueles que o invocam. Ele não faz acepção de pessoas. O Pai ama o Filho e a todos reconciliou em suas mãos».

    Contanto que nós amemos a ele, nosso Pai celeste, como filhos, o Senhor escuta tanto um monge quanto um homem do mundo, um simples cristão, contanto que ambos sejam ortodoxos (tenham a verdadeira fé), amem   a Deus do fundo do seu coração e possuam uma fé «semelhante a um grão   de mostarda» (Mt 13,31-32; Mc 4,30-32; Lc 13,18-19), ambos alçaremos montanhas (Mc 11,23). «Como pode um homem só perseguir mil, e dois porem em fuga   a dez mil» (Dt 32,30)? O próprio Senhor disse: «Tudo é possível para aquele que crê!» (Mc 9,23). E o santo apóstolo Paulo   escreve: «Tudo posso naquele que me fortalece» (Fl 4,13). Mais maravilhosas são as palavras do Senhor referindo-se aos que creem nele: «Quem crê em mim   fará as obras que faço e fará maiores do que elas, porque vou para o Pai. E o que pedirdes em meu nome fá-lo-ei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes algo em meu nome, eu o farei» (Jo 14,12-14). «Até agora, nada pedistes em meu nome; pedi e recebereis para que a vossa alegria   seja completa» (Jo 16,24).

    Assim é, amigo de Deus. Tudo o que pedirdes a Deus, obtereis, contanto que o vosso pedido seja para a glória de Deus ou para o bem de vosso próximo. Pois Deus não separa o bem do próximo da sua glória. «Tudo o que fizerdes ao menor de entre vós é a mim que o fareis» (Mt 10,40; Mc 9,37; Lc 9,48). Deveis, pois, estar seguro de que o Senhor atenderá vossos pedidos; contanto que sejam feitos para edificação e utilidade do vosso próximo. Todavia, mesmo que seja para vossa própria necessidade   ou utilidade ou proveito que peçais qualquer coisa, não tenhais dúvida alguma de que Deus vo-la concederá se houver verdadeiramente necessidade, pois ele ama os que o amam. É bom para todos. A sua misericórdia estende-se também aqueles que não invocam o seu nome. Quanto mais não fará ele a vontade daqueles que o temem. Ele atenderá todos os vossos pedidos, ele não vo-los recusará por causa   da vossa fé ortodoxa no Cristo Salvador, pois ele não abandona o cetro dos justos nas mãos dos pecadores (SI 125[124],3) e fará certamente a vontade de Davi, seu servidor. Todavia ele poderá perguntar-vos por que foi incomodado sem necessidade e por que haveis solicitado aquilo de que facilmente teríeis podido abster-vos.

    Pois bem, amigo de Deus, agora eu vos disse tudo e, na realidade, mostrei-vos tudo o que o Senhor e sua Santa Mãe quiseram mostrar-vos por intermédio do miserável Serafim. Ide então em paz. Que o Senhor e sua Santa Mãe estejam convosco agora e sempre e pelos séculos dos séculos. Amém. Ide em paz.

    Ao longo de todo o tempo que durou a conversa, desde o momento em que o rosto do padre Serafim se iluminou, a visão   de luz continuava e a sua postura, enquanto falava, desde o começo desta narrativa até o fim, permanecia imutável  . Quanto ao esplendor indizível da luz que irradiava, eu a vi com meus próprios olhos e estou pronto a confirmá-lo sob juramento.