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Serafim Espiritualidade

terça-feira 29 de março de 2022

Excertos do livro "Instruções Espeiriuais - Diálogos como Motovilov", trad. de Helena Livramento
Comércio espiritual

  •  Mas como praticar, Padre, em nome de Cristo, outras virtudes que permitiriam a aquisição do Espírito Santo? Não falais senão de oração.
  •  Obtende a graça do Espírito Santo negociando em nome de Cristo todas as virtudes possíveis, fazei espiritualmente o comércio, negociai as que vos dão maior benefício. O capital, fruto dos bem-aventurados retornos da misericórdia divina, investi-o na caixa econômica eterna de Deus com porcentagens imateriais, não somente de 4% ou 6% mas de 100% e mesmo infinitamente mais. Por exemplo, as orações e vigílias vos trazem muitas graças? Velai e orai. O jejum vos alcança mais ainda? Jejuai. A caridade vos alcança ainda muito mais? Fazei caridade. Considerai assim cada boa ação feita em nome de Cristo.

    Falar-vos-ei de mim, miserável Serafim. Nasci numa família de negociantes de Koursk. Antes da minha entrada no mosteiro, meu irmão e eu negociávamos com diversas mercadorias, especialmente com as que nos traziam mais lucros. Fazei o mesmo. Tal como no comércio o objetivo é conseguir o maior lucro possível, assim na vida cristã a meta deve ser não somente orar e fazer o bem, mas obter o maior número possível de graças. Bem disse o Apóstolo  : "Orai sem cessar" (1Ts 5,17) e acrescenta: "Mas, numa assembleia, prefiro dizer cinco palavras com a minha inteligência, para instruir também os outros, a dizer dez mil em línguas" (iCor 14,19). E o Senhor nos previne: "Nem todo aquele que diz ‘Senhor, Senhor’, entrará no Reino dos Céus, mas sim, aquele que pratica a vontade de meu Pai que está nos Céus" (Mt 7,21), com outras palavras, aquele que faz a obra de Deus com zelo (Jr 48,10). E que obra é esta senão "que acrediteis naquele que ele enviou" (Jo 6,29). Se refletirmos corretamente nos mandamentos de Cristo e nos dos Apóstolos, vemos que a nossa atividade cristã não deve consistir unicamente em acumular as boas ações - que não são senão meios para chegar à meta - mas em tirar delas o maior proveito, que quer dizer, em obter os dons superabundantes do Espírito Santo.

    Como gostaria, amigo de Deus, que encontrásseis esta fonte inesgotável de graça e vos interrogásseis sem cessar: "O Espírito Santo está comigo? Se ele está comigo, bendito seja Deus, não nos inquietemos - mesmo que o julgamento final seja amanhã, estou pronto a comparecer. Pois foi dito: "Julgar-vos-ei segundo o estado no qual vos encontrar". Se pelo contrário não tivermos mais a certeza de estar com o Espírito Santo, é preciso descobrir a causa pela qual ele nos abandonou e procurá-lo sem descanso, até o encontrarmos de novo, a ele e à sua graça. É preciso perseguir os inimigos, que nos impedem de ir a ele, até seu aniquilamento completo. O profeta Davi disse: "Persigo meus inimigos e os alcanço, não volto atrás sem tê-los consumido; eu os massacro e não podem levantar-se, eles caem debaixo dos meus pés" (Sl 18[17],38-39).

    Sim, é bem assim. Fazei comércio espiritual com a virtude. Distribuí os dons da graça a quem os pede, inspirando-vos no exemplo seguinte: uma vela acesa, queimando com um fogo terreno, inflama, sem perder o seu brilho, outras velas que iluminarão outros lugares. Se tal é a propriedade de um fogo terreno, que dizer do fogo da graça do Espírito Santo? A riqueza terrena, distribuída, diminui. Quanto à riqueza celeste da graça, ela não faz senão aumentar naquele que a propaga. Assim o próprio Senhor disse à Samaritana: "Àquele que bebe desta água terá sede novamente; mas quem beber da água que eu lhe darei nunca mais terá sede. Pois a água que eu lhe der tornar-se-á nele uma fonte de água jorrando para a vida eterna" (Jo 4,13-14).

    Ver a Deus

  •  Padre, disse-lhe eu, falais sempre da aquisição da graça do Espírito Santo como a finalidade da vida cristã. Mas, como posso reconhecê-la? As boas ações são visíveis. Mas o Espírito Santo pode ser visto? Como posso saber se ele está ou não em mim?
  •  Na época em que vivemos, respondeu o staretz, chegou-se a uma tal tibieza na fé, a uma tal insensibilidade para com a comunicação com Deus, que as pessoas se afastaram totalmente da verdadeira vida cristã. Há passagens da Escritura que nos parecem estranhas hoje, como, por exemplo, quando o Espírito Santo pela boca de Moisés diz: "Adão via Deus passeando no paraíso" (Gn 3,8), ou quando lemos no apóstolo   Paulo que foi impedido pelo Espírito Santo de anunciar a palavra na Ásia, mas que o Espírito o acompanhou quando ele se dirigia para a Macedônia (At 16,6-9). Em muitas outras passagens da Sagrada Escritura ele é, por várias vezes, assunto da aparição de Deus aos homens.

    Então alguns dizem: Estas passagens são incompreensíveis. Pode-se admitir que homens possam ver a Deus de maneira tão concreta? Esta incompreensão vem do fato de que sob pretexto de instrução, de ciência, mergulhamos numa tal obscuridade de ignorância, que tudo achamos incompreensível, tudo de quanto os antigos tinham uma noção bastante clara para poderem falar entre eles das manifestações de Deus aos homens como de coisas conhecidas e, de forma alguma, estranhas. Assim Jó, quando os seus amigos o reprovavam por não blasfemar contra Deus, respondia: "enquanto em mim houver um sopro de vida e o alento de Deus nas narinas, meus lábios não dirão falsidades" (Jó 27,3). Em outras palavras, como posso blasfemar contra Deus, quando o Espírito Santo está em mim? Se blasfemasse contra Deus, o Espírito Santo me deixaria, mas sinto sua respiração em minhas narinas. Abraão e Jacó conversaram com Deus. Jacó lutou mesmo com ele. Moisés viu Deus e todo o povo com ele, quando recebeu as Tábuas da Lei, no Sinai. Uma coluna de nuvens de fogo - a graça visível do Espírito Santo - servia de guia ao povo hebreu no deserto. Os homens viam Deus e seu Espírito não em sonho ou em êxtase - fruto de uma imaginação doentia - mas na realidade.

    Desatentos, como nos tornamos, compreendemos as palavras da Escritura contrariamente ao que se deveria. E tudo isso porque, em lugar de buscar a graça, nós a impedimos, por orgulho intelectual, de vir habitar em nossas almas e de nos esclarecer como são esclarecidos aqueles que de todo o coração buscam a verdade.