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BIBLIOTECA DE NAG HAMMADI

Evangelho dos Egípcios

CÓDICES III,2 e IV,2

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Le Livre sacré du Grand Esprit invisible

    

Apresentação (excertos resumidos) retirada da introdução da tradução de Alexander Bölig e Frederik Wisse, da compilação de James Robinson  

O assim chamado Evangelho dos Egípcios está preservado em duas versões cópticas que foram traduzidas independentemente do grego. Não se relaciona com o apócrifo Evangelho dos Egípcios que é citado na literatura patrística.

Esta obra que também se intitula “O Santo Livro do Grande Espírito   Invisível  ”, é um escrito esotérico do tipo setiano de gnosticismo   mitológico. Pode ser descrita como uma obra que apresenta a história gnóstica da salvação  . Posto que o mitológico e celestial Set é representado como o pais   da raça   gnóstica, é apropriado que o tratado o liste com o autor deste livro divinamente inspirado.

O tratado se divide em quatro seções: a primeira sobre a origem   do mundo celestial; a segunda discute a origem, preservação e salvação da raça de Set; a terceira é um hino; e a quarta contem um relato conclusivo da origem setiana e da transmissão   do tratado.


O Evangelho dos Egípcios (III,2)

O título deste tratado, na realidade  , é "O (santo) livro dos Egípcios a propósito do Grande Espírito   Invisível, o Pai  ", título que abre e fecha o escrito. Isso significa que este tratado nada tem em comum com o Evangelho dos Egípcios, bem conhecido na literatura apócrifa. Trata-se aqui de obra gnóstica de mitologia, atribuída ao Set celeste, pai da raça setiana, cuja origem é justamente relatada pelo texto. Do ponto de vista de seu conteúdo, o texto pode ser dividido em duas partes principais, sobre a origem mítica do mundo e de Set:

— p. 40,12-55,16: a origem do mundo celeste;

— p. 55,16-66,8: a origem, a preservação e a salvação da raça de Set, para a qual Set reaparece em Jesus   e cumpre função cósmica.

As páginas 66,8-67,26 constituem um hino de encantamento   e as páginas 68,1-69,17 apresentam relatório da origem dos setianos e da transmissão do tratado.

O tratado não apresenta nenhum relato sobre a queda de Sofia. Em contrapartida, apresenta longa enumeração dos componentes míticos do Pleroma  . Por exemplo, na p. 49,22-50,17:

O homem   louva o Grande Espírito invisível, incompreensível e virginal, a virgem-macho [1], o filho três vezes macho, a virgem-macho Ioel, Esefech, a maravilhosa, filho do filho e coroa de sua glória  , o grande Doxemedão-Eão, os tronos que estão nele, as Forças que o cercam, as Glórias e os Incorruptíveis e o seu Pleroma inteiro, que já mencionei, e a terra   etérea, que recebe Deus  , onde o santo homem da grande luz recebe (sua) imagem, o homem do Pai, do Silêncio  , do Silêncio Vivente, o Pai e todo o seu Pleroma, como já indiquei.

Set é enviado   ao mundo como salvador (p. 62,24-64,9):

Então o Grande Set foi enviado pelos quatro Luminares, pelo bem querer do Autógeno e todo o Pleroma, segundo o dom e o bom grado do Grande Espírito invisível, dos cinco   Selos e do Pleroma inteiro. Passou através   das três parusias que mencionei — o dilúvio, a conflagração e o juízo   dos Arcontes, das Forças e das Autoridades — para salvar a raça perdida, por meio da reconciliação do mundo e pelo batismo  , através do corpo do Logos   gerado, que o grande Set preparou para si mesmo   secretamente na virgem, de modo que os santos possam ser gerados pelo Espírito Santo, pelos símbolos secretos invisíveis, por reconciliação do mundo com o mundo, pela renúncia ao mundo e aos deuses dos treze Eões, pelas assembleias dos santos, dos Indizíveis e das Matrizes incorruptíveis e pela grande luz do Pai, que preexistiu com sua Providência e que estabeleceu por meio dela o santo batismo, que supera os céus, pelo incorruptível   Logos gerado, Jesus Vivente, aquele que o Grande Set designou. E, através dele, imobilizou as Forças dos treze Eões e determinou aqueles que são gerados e levados. Ele os cingiu com a armadura da gnose dessa verdade   e com uma força invencível de incorruptibilidade.

Por vezes, o texto resvala para o gênero hínico. Eis um exemplo, um hino encantador (p. 66,9-22).

Verdade de verdade! Ó Iesseus Mazareus Iessedekeus! Ó água viva! Ó filho do filho! Ó nome glorioso!

Verdade de verdade! Eão da existência! Iiii êêêê eeee oooo uuuu ôôôô aaaaa!

Verdade de verdade! Êi aaaa ôôôô! Ó Existente que vê os Eões!

Verdade de verdade! Aee êêê iiii uuuuuu ôôôôôôôô, que és eternamente eterno!

Verdade de verdade! Iêa aiô, no coração  , que existe, u aei eis aei, ei o ei ei os ei!

Por fim, a subscrição do escriba, Eugnosto-Congessos (Concessus), permite-nos entrever como o redator (ou copista) situava-se a si próprio   nessa revelação (p. 69,6-20):

O Evangelho dos Egípcios. O livro divino  , santo, secreto. Graça, inteligência  , compreensão   e prudência   àquele que o escreveu, Eugnosto, o bem-amado   segundo o Espírito, segundo a carne   meu nome é Congessos, e a meus companheiros nas luzes da incorruptibilidade.

Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador, ICHTUS  .

O santo livro do Grande Espírito invisível é escrito por Deus.

Amém.
Notas


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[1O texto evoca dessa forma a androginia primordial dos seres celestes.