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Evangelho de Tomé - Logion 102

EVANGELHO DE TOMÉ

quarta-feira 17 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Jesus   disse: Ai daqueles, os fariseus  , pois se parecem a um cachorro   que está deitado sobre o presépio dos bois! Nem come, nem deixa comer aos bois. (Roberto Pla  )

    

Pla

Jesus   disse: Ai daqueles, os fariseus  , pois se parecem a um cachorro   que está deitado sobre o presépio dos bois! Nem come, nem deixa comer aos bois.

Puech

102. Jésus a dit : Malheur à eux, les Pharisiens, car ils ressemblent à un chien qui est couché sur la mangeoire des bœufs, car ni il ne mange ni il ne laisse les bœufs manger.

Suarez

1 Jésus a dit : 2 pauvres d’eux les pharisiens, 3 parce qu’ils ressemblent à un chien 4 dormant dans la mangeoire des bœufs, 5 car il ne mange 6 ni ne laisse les bœufs manger.

Meyer

102 Jesus said, “Woe to the Pharisees, for they are like a dog sleeping in the cattle manger, for it does not eat or [let] the cattle eat.” [Cf. Matthew   23:13 (Q); Luke 11:52 (Q); Gospel of Thomas 39:1–2; Aesop   Fable 702]


Roberto Pla

Segundo a Boa Nova há duas classes de alimento: o alimento   perecível que não preserva da morte ao que come, e o alimento que permanece e faz permanecer para a Vida eterna, feito com trigo   dos céus, e que só o dá o Filho   do homem  .

  • Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela comida que permanece para a vida eterna, a qual o Filho do homem   vos dará; pois neste, Deus  , o Pai, imprimiu o seu selo. (Jo 6,27)

Deste alimento que traz a transformação   da consciência   em espírito  , e pela qual é possível passar da morte à Vida, fala agora Jesus o Vivente.

O presépio é figura do caixote onde o Espírito, em função do selo de Deus, deposita seu unguento para que a alma   alcance sua consumação  , que consiste em ser essência   de si mesma. O unguento que proporciona o Espírito é o alimento que não morre nem admite a morte, a presença que cada um há de descobrir, pois é a unção   da que há que alimentar-se.

Mas a presença deve ser sustentada no entendimento com ordem   paciente e estável, até que ela, que só conhece quando é conhecida, abandone sua primeira condição de presença mal conhecida como em uma espelho   que reflete a Glória   do Senhor, para vir a se a Glória assentada na consciência que a conhece.

  • Porque agora vemos como por espelho, em enigma  , mas então veremos face   a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei plenamente, como também sou   plenamente conhecido. (1Cor 13,12)

Como diz Jesus no quarto evangelho, estas são as obras de Deus que se há de trabalhar  : a primeira obra é crer nessa presença que é um “enviado” que anuncia o Pai. “Crer” é o sinal, posto que é a obra; o pão do céu, que não é o que deu Moisés no deserto  , senão o que dá o Pai.

  • Perguntaram-lhe, pois: Que havemos de fazer para praticarmos as obras de Deus? Jesus lhes respondeu: A obra de Deus é esta: Que creiais naquele que ele enviou. (Jo 6,28-29)

Por isso diz Jesus, o Cristo manifesto e oculto  : “Eu sou o pão da Vida”, pois ele é Cristo imanente e transcendente do “homem em Cristo”, o que difunde o maná que vem do céu. Para dar este pão como alimento está sempre Cristo nas dobras da presença, para fazer-se manifesto   nos homens que o buscam, Jesus o explica: “Esta é a vontade de meu Pai: que todo o que veja ao Filho e nele creia, tenha vida eterna”.

O que diz Jesus é que essa presença se vê à princípio borrada, como se se a olhasse detrás de um véu; mas logo vem um longo trabalho, profundo, que há que fazer com a presença até que se descobre nela ao ungido do Senhor.

Esse é o caminho   feito de bem-aventurança  , do já não sentir temor ante o aguilhão da morte, da alegria   pura e completa que advém cada vez que a alma recorda a presença e a levanta em si mesma, quer dizer, cada vez que a conhece e, em contrapartida, é conhecida por ela.

Da presença fala Lucas   quando diz: Com ele estava o Espírito Santo (a presença), mas o havia sido revelado pelo Espírito que não saborearia a morte “antes de ter visto ao Cristo do Senhor” (Menino Jesus no Templo).

Pelo contrário, aqueles que só entendem e purificam o cálice por fora (aos que o logion e o evangelho identifica como “fariseus”), se comportam como um cachorro deitado na manjedoura. Não comem o alimento verdadeiro que a presença do Espírito os designou — a semente   de Deus em si mesmos — pois essa é comida de despertos e não de adormecidos. Nem deixam que aqueles que em seu dia pudessem descobrir a presença, se alimentem dela, pois interpõem seu corpo de adormecidos.

Estes “fariseus” — pois os há de todos os séculos — negam que dentro do cálice haja outra coisa que ar; se afanam em negar a luz   na qual não creem e pensam sem humildade  , que a luz que não veem, é porque não existe.

Estes “fariseus” ignoram que esse sopro que não se sabe de onde vem nem a onde vai, é a presença, obscurecida à princípio mas forte   depois, do SE - Espírito do que há de nascer quando se aprende a ouvir   sua voz.

Leloup

  • O fariseu é um homem infeliz.
    • Crê «saber», mas nem conhece a si mesmo  .
    • O que ensina só pode distrair do essencial e ocupar, no espírito daqueles que o escutam, o lugar do Vivente.
  • Não se conhece e impede aos outros de se conhecerem a eles mesmos.

Gillabert

  • Variante: «Parecem a um cão deitado na manjedoura dos bois...»
  • Tem seu paralelo no Logion 39
  • Nos dois   casos, os interessados se privam e privam os outros do conhecimento deles mesmos.
    • A obstrução que Jesus assinala vem dos fariseus e dos escribas no primeiro logion, e aqui, dos fariseus.
    • Trata-se de uma maneira realista e figurada de caracterizar o comportamento   psíquico.
  • Se sou psíquico, e só sou isto, me assemelho a um cão deitado na manjedoura dos bois; ele nem come nem deixa os bois comerem.
    • Não emprego minhas forças a me orientar para a gnose, mas impeço por minha atitude àqueles que esta abordagem poderia interessar. Me privo das chaves da gnose e as escondo aos outros, me recuso à Vida e impeço outros de saboreá-la.

Puech

  • Muitos ditos aparentemente nada têm de esotérico, seja neles mesmos, seja em razão   das circunstâncias   onde devem ter sido pronunciados: uns muito simples, muito claros, muito concretos, até mesmo populares como este logion.


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