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Evangelho de Tomé - Logion 85

EVANGELHO DE TOMÉ

terça-feira 16 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Jesus   disse: Adão   saiu de um grande poder e de uma grande riqueza  , e ele não foi digno de vós; pois se houvesse sido digno, não teria provado a morte. (Roberto Pla  )

    

Pla

Jesus   disse: Adão   saiu de um grande poder e de uma grande riqueza  , e ele não foi digno de vós; pois se houvesse sido digno, não teria provado a morte.

Puech

85. Jésus a dit : Adam est issu d’une grande puissance et d’une grande richesse, et il n’a pas été digne de vous; car s’il avait été digne, [il n’aurait] pas [goûté] de la mort.

Suarez

1 Jésus a dit : 2 Adam est issu d’une grande puissance 3 et d’une grande richesse 4 et il n’a pas été digne de vous ; 5 car eût-il été digne 6 qu’il n’aurait pas goûté de la mort.

Meyer

85 (1) Jesus said, “Adam came from great power [Simon Magus was called the great power of God  . Cf. Acts 8:9–10; Concept of Our Great Power.] and great wealth, but he was not worthy of you. (2) For had he been worthy, [he would] not [have tasted] death.”

Canônicos

Portanto, assim como por um só homem   entrou o pecado   no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porquanto todos pecaram. Porque antes da lei já estava o pecado no mundo, mas onde não há lei o pecado não é levado em conta. No entanto a morte reinou desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança   da transgressão de Adão o qual é figura daquele que havia de vir. Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se pela ofensa de um morreram muitos, muito mais a graça   de Deus, e o dom pela graça de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos.. Também não é assim o dom como a ofensa, que veio por um só que pecou; porque o juízo   veio, na verdade, de uma só ofensa para condenação, mas o dom gratuito veio de muitas ofensas para justificação. Porque, se pela ofensa de um só, a morte veio a reinar por esse, muito mais os que recebem a abundância da graça, e do dom da justiça, reinarão em vida por um só, Jesus Cristo. (Rom 5,12-17)


Roberto Pla  

Ao dizer “Adão”, refere-se o logion a toda geração humana, cujo protótipo, Adão, o Homem, foi “feito” em espírito  , à “imagem” de Deus (v. Imagem e Semelhança) e “formado” (plasis  ), logo vestido, de alma   dotada com um sopro temporal de vida (v. o estudo de Antonio Orbe  , “ANTROPOLOGÍA DE SAN IRENEO”).

O “grande poder” que aqui se fala é o Filho   do homem, Cristo interior, constituído em lâmpada oculta, colocada em Sião — o coração   imaterial — como pedra   eleita, preciosa, angular e fundamental, ou seja, como Espírito e força de Deus.

Quanto à “grande riqueza”, não é outra coisa que a alma, que quando toma posse dos “elementos   do mundo” recobre com um véu de opacidade a luz   do espírito que ela mesma veste  . Os desaventurados ricos desta espécie são “pobres” em transparência e por tal desconhecem a bem-aventurança   do Reino, a pedra eleita que mora em seu coração, e que está reservada aos “pobres” de espírito (Pobres em Espírito).

Se no logion não se menciona o corpo material de Adão, a “túnica de pele e carne  ” confeccionada por Deus e que sem dúvida deve figurar na descrição antropológica do homem completo, é porque Jesus só se refere aqui ao espírito e à alma enquanto estes são os dois   centros de consciência   que desde o ponto de vista dinâmico do evangelho são possíveis ao homem.

  • De pele e carne me vestiste, e de ossos e nervos me teceste. (Jó 10,11)

Esses dois centros mencionados no logion, espírito e alma, são o “natural”, o que está ativo em todo homem “nascido de mulher” e cujo destino é “diminuir” até alcançar a humildade  , a cessação absoluta; e a consciência do renascido em Espírito, que deverá “crescer” até lograr a assimilação perfeita com Cristo. Destas duas formas de consciência do homem falou João Batista, o que foi qualificado como “o maior ente   os nascidos de mulher”, quando disse: “É preciso que ele cresça e que eu diminua”.

Ao dizer isto João, explicava o que correspondia cumprir segundo o plano de Deus, posto que a “míngua” da alma vem sempre em testemunho da luz do espírito, e precisamente para dar este testemunho e que todos creram na luz, em Cristo, se diz no quarto evangelho que foi João enviado por Deus.

Na linguagem evangélica, a “diminuição”, a atenuação dos elementos do mundo na alma, é chamada “pobreza  ”, e quando esta “diminuição” é total, até o ponto de extinção, então se fala da morte, uma morte gloriosa da alma que leva à ressurreição   em Cristo, segundo se diz naquele formoso apoftegma: “Se o grão   de trigo   não cai em terra   e morre, fica ele só , mas se morre dá muito fruto  ”. Ficar “só” o grão é manter-se enraizado no consciente separado, em um eu adversário de Deus que Jesus anelava destruir, e o fruto da morte dessa insularidade é concluir a unidade   no seio do Pai.

Roberto Pla estuda o simbolismo da Figueira   a partir da ida de Jesus à casa de Zaqueu.

Quando se diz no logion que Adão “não tinha provado a morte”, não se diz do corpo, que o logion não menciona, nem do espírito que é imortal, senão da alma. O consciente de Adão não soube desprender-se de sua “grande riqueza”, não foi capaz de entregar-se por inteiro à morte para viver   em Cristo.

A causa   dos Adãos que morrem em sua alma é sempre a falta de fé no Cristo morador   neles como sua própria essência  , e por isto não alcançam a dizer à figueira: “arranca-te e joga-te ao mar”, ou ao sicômoro estéril: “arranca-te e planta  -te no mar”. Se esta viagem   e esta translação psíquica se explicou no evangelho é porque por devoção ao Jesus manifesto  , ou por conhecimento do Cristo oculto   como ser verdadeiro de um mesmo, é possível “diminuir” na alma até o ponto de morrer   nela. E somente assim é possível transferir o consciente de vida mortal, já feito puro como o ouro   e uma vez purgado como a prata, ao consciente de Cristo constituído em “poder e sabedoria   de Deus”.

Roberto Pla conclui com uma reflexão   sobre o Morrer.


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