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Evangelho de Tomé - Logion 48

EVANGELHO DE TOMÉ

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Jesus   disse: Se dois   fazem as pazes entre si nesta mesma casa  , dirão à montanha  : desloque-se e ela se deslocará. (Roberto Pla  )

O Evangelho de Tomé - Logion 6 tem um pensamento   semelhante ao deste logion, mas com vistas a unificação absoluta das duas esferas da consciência   que de maneira natural existem em todo homem  .

    

Pla

Jesus   disse: Se dois   fazem as pazes entre si nesta mesma casa  , dirão à montanha  : desloque-se e ela se deslocará. [Reino Dividido]

Puech

48. Jésus a dit : Si deux font la paix entre eux dans cette même maison, ils diront à la montagne : Déplace-toi, et elle se déplacera.

Suarez

1 Jésus a dit : 2 si deux font la paix l’un avec l’autre 3 dans cette même maison, 4 ils diront à la montagne : 5 éloigne-toi, 6 et elle s’éloignera.

Meyer

48 Jesus said, “If two make peace with each other in a single house, they will say to the mountain, ‘Move from here,’ and it will move.”90


Roberto Pla  

Os dois moradores de uma mesma casa são o homem   psíquico e o homem pneumático, os quais residem conjuntamente em cada homem.

A consciência   do homem, fundada nos movimentos da psyche  , não deve dar as costas a sua própria essência   mas voltar-se para descobrir em si mesma e por si mesma a consciência superior, eterna, perfeita, do «homem em Cristo».

De qualquer forma que se olhe, o que «indicam» em várias direções os escritores neotestamentários é que o homem psíquico que a mente   crê conhecer e que denominamos «alma», não é o homem essencial senão a representação ou imagem de si mesmo   que tal homem essencial reproduz em sua consciência. Segundo isto, a alma é um conjunto  , agregado, ou sucessão de dados de natureza psíquica, ou se se quer, psicossomática, que são contemplados secretamente por o «nós mesmos».

O «nós mesmos» a descobrir encontra-se sob a denominação de Filho   do homem, e não pode ser contemplado   por ninguém, pois ele é sempre o que contempla, e em todo ato introspectivo, quem poderia contemplar o contemplador? Daí que a consciência, construída sempre com os conteúdos psíquicos, ignora ao Filho do homem  , seu Ser verdadeiro, e em consequência vive de costas ao sopro vivificador e imortal, a seu hálito de sabedoria  .

De tal modo, o homem, sumido no horizonte   limitado de seus próprios dados de consciência, se crê ser unicamente uma alma, um deserto  , uma ilha para a dor   e a morte. Mas isto não impede que tenuemente difundida nessa consciência permaneça, qual um perfume que nunca se extingue, a intuição   do Ser verdadeiro, do «Eu Sou  ». De maneira incessante, tenta Jesus avivar em todo àquele que se acerque a ouvi-lo, a presença desse homem essencial ao qual indevidamente se mantém marginal.

É verdade que graças à persistência inesgotável desse perfume do Ser, não esquece nunca de todo a consciência que nela há, em seu transfundo, um contemplador que não é ela mesma, senão seu Ser real; por isso são comuns e nunca surpreendem as expressões nas quais se denota de maneira implícita a dualidade formada pela alma, transitada de estados diversos, e o Filho do homem que contempla ditos estados: “E direi a minha alma: alma tens muitos bens” (Lc   12,19); «amarás ao Senhor teu Deus  ... com toda tua alma» (Lc 1,46). Engrandece minha alma ao Senhor (Mt   22,37); ou como se diz explicitamente naquele “Agrapha   - agraphon” que transmite Clemente de Alexandria  : “Salva-te tu e tua alma” (Clemente Excertos Teodoto - Excerpta ex Theodotus); ou naquela exclamação belíssima e cheia de conhecimento, de Jesus: “Minha alma está triste até o ponto de morrer  ” (Mc   14,34).

Há que entender que não é a alma, enquanto eu ou ente   pessoal, quem diz: “Direi a minha alma”; “Engrandece minha alma”; “Minha alma está triste”; ou a quem se encomenda e adverte: “Com toda tua alma; salva a tua alma”.

É certo que a alma, a consciência, possui, como sabemos, uma virtude reflexiva que a dota da capacidade proteica de transformar-se sucessiva e voluntariamente em ator ou espectador de si mesma e passar de um ângulo ao outro com vertiginosa rapidez. A alma é umas vezes o ator único e exclusivo do qual dispõe cada homem e outras vezes é um crítico interessado de seus próprios atos; por isso não invalida o fato evidente   de que na consciência domina a convicção   firme   — poderíamos dizer que com “fixação instintiva” — refletida inclusive na linguagem, de que a alma é um ator que responde com maior ou menor docilidade e disciplina a uma ordenação superior de outro habitante da mesma casa, chame-se ele o eu  , a vontade ou o Si mesmo.

O que ocorre é que o Filho do homem, que assim denomina Jesus a esse coinquilino superior de quem falamos, não entra nunca na condição de ator nos campos de batalha   da psyche. Sua obra de bem-aventurança   e o envio de seu “sopro” de sabedoria, não são em pureza   o resultado de sua ação, senão um fato que se produz sempre quando aparece na alma o reconhecimento de sua presença testificante.

Denuncia o logion que a alma — a consciência psíquica — vive de costas para a presença constante em sua própria casa deste espectador de exceção. O viver   diário da alma se reduz a ignorar a presença da testemunha eterna, e sua consequência é a cisão do homem unitário em uma dualidade psíquico-espiritual, da qual se engendram o temor, a ignorância, a solidão. O resultado negativo desta dicotomia é advertido sem trégua por Jesus: “Se uma casa está dividida contra si mesma não poderá manter-se” (Reino Dividido); “Os inimigos do homem serão os de sua casa” (Odiar   tua alma).

O propósito geral da Boa Nova consiste em proclamar os meios para que estes dois moradores ou princípios separados, os pneumáticos “cativos” e os psíquicos “oprimidos” — estes últimos por causa   de sua própria cegueira   — alcancem a união   que significará para ambos a redenção. Esta exposição a faz Jesus por vez primeira apoiado em um texto de Isaías que lê na sinagoga de Nazaré e no qual revela sua dupla ação programática:

  • “proclamar a redenção dos cativos”, estes são os pneumáticos, os “pobres” aos quais se anuncia tal Boa Nova
  • “enviar com liberdade aos oprimidos”, os psíquicos, uma vez recuperada a visão destes, pois são os “cegos” (Lc 4,18; Is 61,1).

Muito mais adiante, na magna oração   reproduzida no evangelho joanico e pronunciada, segundo se diz, por Jesus a ponto de iniciar   sua Paixão, volta a insistir, no rogo que em sua oração faz ao pai, na dupla direção   de sua ação redentora. Diz: “Não rogo somente por estes (pelos pneumáticos ‘consagrados’ na verdade da Palavra), mas também por aqueles (os psíquicos) que, por meio de sua Palavra (a que neles reside), creram em mim. Que todos sejam um”.


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