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Fludd Yates

terça-feira 29 de março de 2022

    

Excertos de «O Iluminismo Rosa-Cruz»

Robert Fludd   iniciou sua carreira rosa-cruciana do modo habitual, ou seja, publicou duas obras manifestando admiração   pelos Irmãos R.C. e seus objetivos expostos nos manifestos. Os dois   livrinhos, ambos em latim, publicados por Fludd em seus primeiros esforços para entrar em contato com os Irmãos R.C., eram: o primeiro, Compendious Apology   for the Fraternity of the Rosy Cross, fazendo desaparecer num Flood (na correnteza da água) (fez um trocadilho com seu nome), as manchas da suspeita e infâmia com as quais ela fora caluniada, — daqui em diante referido como Apologia; e segundo, The Apologetic Tractatus for the Society of the Rosy Cross, de ora em diante mencionado por Tractatus. Foram publicados por Godfrey Basson, em Leiden, nos anos de 1616 e 1617.

Godfrey Basson era filho   de Thomas Basson, inglês estabelecido em Leiden como impressor e editor. Thomas, que fora um protegido do Conde de Leicester, interessava-se pelo ocultismo. Foi ele quem publicou em 1597, o Thamus, de Alexander Dicson, discípulo de Giordano Bruno, o qual é uma arte mágica da memória, imitação   do trabalho   de Bruno.

A Apologia de Fludd inicia-se com uma tendência para evocar as tradições da antiga sabedoria dos prisci theologi, principalmente a de "Mercurius Trismegistus" o qual segundo afirmam, é a mais importante autoridade   dessa sabedoria, constando ambas de seus "Sermons" (isto é, Corpus   Hermeticum) e do Tábua de Esmeralda - Esmerald Table, aquela sucinta declaração da filosofia hermética, que foi tão grandemente reverenciada pelos alquimistas. Portanto é aderindo à filosofia "egípcia", a filosofia hermética do suposto sacerdote egípcio, Hermes   Trismegistus, que Fludd se aproxima dos Irmãos R.C..

Em seguida, ele conta como a celebridade da Fama, da Sociedade da Rosa-Cruz, atravessou toda a Europa e chegou aos seus ouvidos. Fludd não vira apenas os dois manifestos, a Fama e a Confessio; vira também o ataque   a eles feito por Libavius. Este — segundo ele afirmou — atacara implacavelmente os Irmãos R.C. e num trecho acusara-os de insubordinação política ou sedição: "Nam uno   loco fratres in seditionis suspicionem adduxit". Prevaleço-me disto para fazer uma referência à análise de Libavius dos trechos sobre o Império nos manifestos, nos quais ele encara como desígnios rebeldes. Fludd rejeita as críticas de Libavius e aprova os manifestos. Os Irmãos — sustenta ele — são verdadeiros cristãos. Não são perversamente mágicos ou sediciosos. Não teriam alardeado a sua mensagem, se fossem malvados. Iguais aos luteranos e calvinistas, são contra o Papa, entretanto não são hereges  . Talvez esses Irmãos estejam realmente iluminados por Deus  . Fludd suplica-lhes encarecidamente que o recebam em sua companhia.

O Tractatus, do ano seguinte, inicia-se com o mesmo prefácio da Apologia, mas apresenta nova defesa da "mágica virtuosa". Existem boas e más qualidades de mágica, caso, porém, a boa qualidade   é excluída ou condenada, "eliminamos toda a filosofia natural". Os magos são peritos na matemática — diz ele — apresentando então a habitual lista das maravilhas mago  -mecânicas, começando com a pomba de madeira   de Architas e prosseguindo com as maravilhosas proezas de Rogério Bacon, Alberto Magno e outros (compara as listas dessas maravilhas dadas por Agrippa  , Dee  , e praticamente todos os escritores sobre a mecânica na fase mágica). Os Irmãos R.C. — continua Fludd — empregam apenas as boas qualidades da mágica, matemática e mecânica, e a mágica da Cabala  , que ensina como invocar os sagrados nomes dos anjos  . A Magia, a Cabala e a Astrologia  , conforme estudadas pelos Irmãos R.C., são científicas e sagradas.

Em seguida, Fludd passa em revista as artes e ciências, encarecendo que elas estão precisando de progresso. A filosofia natural, a alquimia  , a medicina   são todas deficientes. Segundo ele, a Fama rosa-cruciana acelerou seu desenvolvimento. Ele parece ter visto essa acepção na misteriosa caverna   geométrica e outros aparelhos fantásticos contidos na Fama; para Fludd eles representam as ciências matemáticas, de cuja melhoria a Fama está precisando no seu programa de reforma.

Fludd enumera as artes matemáticas: geometria  , música  , arte militar, aritmética, álgebra e ótica, todas elas carecendo de desenvolvimento e reforma. Encontramo-nos dentro da esfera   do Prefácio de John Dee a Euclides, com a sinopse das artes matemáticas alistadas por Vitrúvio, e das quais a arquitetura é a principal. Num outro lugar, examinei a influência do Prefácio de Dee sobre Fludd. No Tractatus, Fludd parece admitir que tal programa de reforma das artes matemáticas é o que os Irmãos R. C. desejam e nele insistem em seus manifestos; o que equivale dizer que os manifestos R. C. são influenciados por Dee, e que o movimento   mágico por eles empreendido é do tipo matemático e científico ensinado por Dee. Em vista dos fatos que foram descobertos sobre a influência da Monas hieroglyphica, de J. Dee, sobre os manifestos e o Chemical Wedding, as suposições de Fludd estão provavelmente corretas. Prosseguindo a sua sinopse sobre os assuntos que estão a exigir uma reforma, ele enuncia em seguida a ética, a economia  , a política, a jurisprudência e a teologia. Depois disto, volta-se para a profecia   e a invocação do Espírito   Santo e dos anjos como imprescindíveis ao movimento, e termina com alusões aos maravilhosos poderes ocultos da música.

Finalmente, conforme o fez no opúsculo do ano anterior  , Fludd se dirige aos Irmãos R. C. pedindo para ser admitido em seu trabalho.

O pedido de Fludd para a reforma das ciências tem um eco baconiano e em parte pode ser influenciado pelo The Advancement of Learning. Mas a ênfase sobre a matemática e a invocação dos anjos se assemelha mais a Dee, e poderia parecer que fosse o tipo de programa intelectual de Dee, que Fludd reconhecera nos manifestos rosa-crucianos.

Alguns anos depois, ao defender-se dos ataques inimigos na Inglaterra, que o acusavam de ser um "rosa-cruciano", devido às suas desculpas por aqueles "Filósofos e Teósofos eruditos e famosos", que se denominavam "Irmandade da Rosa-Cruz", Fludd alegou que não recebera resposta   dos Irmãos R.C., embora julgasse que a "Pansofia, ou conhecimento universal   da Natureza por eles professada, devia ser igual à sua própria filosofia". Esta foi sempre a linha habitual sobre indagações provenientes dos manifestos rosa-crucianos, e que jamais receberam resposta, ocorrendo sempre o silêncio   após os sons da trombeta. Embora Fludd pareça acreditar na existência real   dos Irmãos R. C, ele admite jamais ter visto um.

No caso de Fludd, poderia parecer que apesar de tudo, algo ocorreu em resposta à sua Apologia e ao seu Tractatus. Deve ter sido convidado para publicar seu trabalho no Palatinado com a firma De Bry. Isto pode significar que sua defesa dos Irmãos R. C, contra Libavius, fora reconhecida como prova de seu apoio à política do Palatinado.

Quando mais tarde defendendo-se da acusação feita contra ele na Inglaterra, de que tivera seus livros publicados "além dos mares", porque a magia neles contida proibia a sua publicação naquele país, Fludd cita uma carta de um erudito alemão, afirmando que o impressor (isto é De Bry), antes de imprimi-lo mostrara o volume   a homens cultos, inclusive a alguns jesuítas, que tinham admirado e recomendado a publicação, embora esses últimos reprovassem as suas partes sobre a geomancia, desejando que fossem omitidas. Todavia, e evidentemente, não foram omitidas. Fludd está convencido de que seus volumes não são desagradáveis aos calvinistas, entre os quais encontra-se seu editor, e nem tampouco aos papistas, que os aprovaram, porém ignora o fato de que de acordo   com ele mesmo, os jesuítas não os tinham sancionado inteiramente.