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Ibn Khaldun Profetismo I

terça-feira 29 de março de 2022

    

Excertos da tradução de José Khoury e Angelina Bierrenbach Khoury, IBF, 1958

SEXTO DISCURSO PRELIMINAR — TRATANDO DOS HOMENS QUE, SEJA POR DISPOSIÇÃO INATA, SEJA POR TREINO OU DISCIPLINA, CHEGAM A PERCEBER O MUNDO INVISÍVEL; COM OBSERVAÇÕES PRELIMINARES SOBRE A NATUREZA DA REVELAÇÃO

Ibn Khaldun Profetismo - O PROFETISMO (cont.)

A alma   humana, tal como acabamos de descrever, é invisível   aos sentidos mas suas influências evidenciam-se no corpo. Pode-se dizer que o corpo e suas partes, combinadas ou isoladas, são instrumentos postos a serviço da alma e de suas faculdades. Como partes ativas (ou operantes) pode-se indicar a mão   que serve para apanhar, os pés para andar, a língua para falar, e o corpo operando movimento   geral por esforços alternados. Do mesmo modo que as faculdades da alma perceptiva estão dispostas numa ordem regular   elevando-se até à faculdade superior, isto é, a alma racional  , chamada também "falante" ou Nática [1], assim também as faculdades (do sentido exterior  ) que informam os órgãos corporais da vista, da audição  , etc, elevam-se até ao nível do Senso Interior [2].

A primeira destas faculdades apreensivas internas é a sensibilidade que percebe as impressões recebidas pela vista, ouvido, tato  , etc. Estas percepções chegam-lhe simultaneamente, sem produzirem qualquer confusão, o que a distingue completamente   dos sentidos externos. Ela transmite estas impressões à imaginação  , faculdade que produz na alma com exatidão a forma dos objetos percebidos pelos sentidos, forma desprovida da matéria extrínseca. O instrumento que serve para as operações destas duas faculdades é o ventrículo do cérebro   que ocupa a parte frontal da cabeça; localiza-se na parte anterior   a sensação   e, na parte posterior, a imaginação. A imaginação eleva-se depois até ao nível da faculdade estimativa e ao nível da faculdade memorativa (ou retentiva). A estimativa serve para perceber as espécies imateriais que não necessitam de um corpo para existir e que por acidente (per accidens) podem encontrar-se   num corpo [3]. Assim, ela percebe, por exemplo, a hostilidade de Zaid, a franqueza de Amr, a ternura do pai  , a voracidade do lobo. A faculdade memorativa ou retentiva retém e guarda  , como num depósito, todas as percepções materiais e imateriais para quando precisar. O instrumento que serve estas duas faculdades situa-se no ventrículo posterior do cérebro, servindo a parte posterior a estimativa e a parte anterior a retentiva ou memória. Todas essas faculdades elevam-se em seguida, ao nível da faculdade refletiva, a qual tem por instrumento o ventrículo central do cérebro. Da faculdade refletiva parte o movimento para a meditação   e a tendência da alma para se tornar intelecto   puro. Esta situação   deixa a alma numa agitação contínua, procurada por ela por inclinação   própria, com o fim de libertar-se da força que a retém ao mundo sensível   e evadir-se da disposição   que a liga à natureza humana. Sua aspiração é tornar-se de fato uma inteligência pura, para se assimilar à Companhia sublime espiritual, e se colocar na hierarquia inferior   dos seres espirituais, por meio da faculdade de adquirir percepções sem o intermédio dos instrumentos corporais. Esta é a meta de todos seus movimentos e o objeto de todos seus desejos. Uma vez despida da natureza humana que a encobria, passa ela, mediante a espiritualidade, à Esfera   superior, que é a Esfera dos anjos  . Alcança esta esfera, não por causa   de algum direito, mas porque Deus  , ao criá-la, lhe deu a tendência natural para chegar a esta Esfera.



[1An-Nafs Annática, é a tradução fiel de "logike psyche" dos filósofos gregos. Visto que em árabe ela comporta o sentido de "falante", como aliás o termo grego, Ghazalli dá à "natica" a seguinte explicação: Chamam-na de "falante", sem dúvida por ser a língua o fruto externo mais próprio da razão, mesmo que não se possa chamá-la "falante" em ato, senão e somente em potência. (Ghazali: Tahafot Al Falasifat, pág. 71, ed. Cairo, 1319). Para os Gregos: o mesmo termo "logos" significa: palavra e razão. (Nota dos Trad.).

[2Senso interior, ou Muchtarac, ou senso comum é assim definido por Ghazali: Das três Faculdades apreensivas internas, é a faculdade que, localizada na parte anterior do cérebro, conserva as imagens dos objetos percebidos pelos olhos, mesmo depois de fechadas as pálpebras. Além disso, ela conserva impressas as espécies de tudo o que se conhece pelos cinco sentidos. Enquanto reúne estas espécies, chama-se sentido comum ou Al Hiss al Muchtarac. A necessidade de admitir esta função do senso comum é evidente. Quem vê, pela primeira vez, mel branco e gosta dele, sente sua doçura. Não fosse o sentido comum, resultaria que, na segunda vez, não poderia perceber a doçura do mel branco, senão provando-o como da vez anterior. Mas certamente não é preciso prová-lo, porque, no sujeito, surge um juízo que decide que "este branco é o doce". Logo, deve forçosamente haver no sujeito um juiz perante o qual se apresentaram as duas coisas, a côr e a doçura, para ele inferir da existência de uma delas à existência da outra. (Ibid, p. 70). (Nota dos Trad.).

[3A doutrina dos filósofos árabes mais adiantados ensina que só o ser é o produto imediato de Deus e em relação imediata e direta com Ele. Este ser é a primeira inteligência, o primeiro motor das estrelas fixas. O céu, ser incorruptível, simples, todo em ato e movido por uma alma, é o mais nobre dos seres animados. Encerra muitas órbitas, dotada cada uma de sua inteligência. As inteligências das esferas são os anjos hierarquicamente subordinados. (Cf, Renan: Averroes et l’Averroisme, 2° ed., p. 116 e ss.). É esta reunião de inteligências que Ibn Khaldun quer designar pela expressão "Al Mala’ul A’la" "A Companhia Sublime".