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Boaventura Unidade Ser

terça-feira 29 de março de 2022

      

Capítulo V A CONTEMPLAÇÃO DA UNIDADE   DIVINA NO SEU NOME PRINCIPAL: O SER  

1 Podemos contemplar a Deus   não só fora de nós e dentro de nós, mas também acima de nós: fora de nós, pelos seus vestígios; dentro de nós, pela sua imagem; acima de nós, pela sua luz estampada sobre nosso espírito (cf. Sl 4,7). Esta é a luz   da eterna Verdade, pois "o nosso espírito foi imediatamente formado pela própria Verdade". [1]

Aqueles que se exercitaram no primeiro degrau entraram já no adro que se encontra diante do Tabernáculo. Aqueles que percorreram o segundo avançaram já até o Santo. Aqueles que passaram pelo terceiro degrau penetraram já, com o Sumo Pontífice, no Santo dos Santos, onde dois   Querubins da glória  , colocados sobre a Arca, cobrem com suas asas o Propiciatório (cf. Ex 25,28). Estes dois Querubins representam os dois modos   ou degraus pelos quais nos elevamos às perfeições invisíveis e eternas de Deus; o segundo, os atributos próprios de cada Pessoa  .

2 O primeiro método fixa o nosso olhar primeira e principalmente sobre o Ser mesmo, declarando que o primeiro Nome de Deus é "Aquele que é" (Êx 3,14). No segundo método nosso espírito considera o Bem em si mesmo  , dizendo que também o Bem é o primeiro nome de Deus. O primeiro destes nomes — o Ser — refere-se particularmente ao Antigo Testamento  , que proclama sobretudo a unidade da essência divina [2]. Por isso foi dito a Moisés: "Eu sou   aquele que sou" (Êx 3,14). O segundo nome — o Bem — faz referência ao Novo Testamento, que revela a pluralidade das Pessoas divinas ao batizar   no nome do Pai  , do Filho e do Espírito Santo (cf. Ml 28,19).

Por isso Jesus Cristo  , nosso Mestre, querendo elevar à perfeição evangélica aquele jovem que afirmava ter observado a Lei, atribui principal e exclusivamente a Deus o nome de bom: "Ninguém é bom — disse então — senão só Deus" (Lc   18,19). Assim, S. João Damasceno (I De Fide Orthodoxa, cap. 9), seguindo Moisés, diz: "Aquele que é é o primeiro nome de Deus". Dionísio (De Divinis Nominibus, cap. 3 1 e cap. 4 1), ao contrário, seguindo a Cristo, afirma que o primeiro Nome de Deus é o bem.

3 Quem, pois, deseja contemplar as perfeições invisíveis de Deus referentes à unidade de sua essência, fixe primeiro sua atenção sobre o Ser mesmo. Verá que o Ser mesmo comporta em si tal absoluta certeza  , que é impossível concebê-l’O como não existente. Porque o Ser puríssimo exclui essencialmente no pensamento   o não-ser, assim como o nada   exclui absolutamente o ser.

Com efeito, assim como o puro nada tem absolutamente nada do ser nem de suas propriedades, assim o Ser absoluto nada tem do não-ser. Nem em ato nem em potência. Nem na realidade nem no nosso pensamento. Ora, sendo o nada a privação do ser, nós não podemos concebê-l’O senão por meio do ser. O ser, pelo contrário, para ser conhecido, não tem necessidade   duma coisa estranha a ele, porque tudo o que percebemos com a nossa inteligência percebemo-lo ou como não-ser, ou como ser possível, ou como ser real  . Ora, se o não-ser não se concebe senão pelo ser, se o ser possível é inconcebível sem o ser real e se o ser designa o mesmo ato puro do ser, deve-se concluir então que o ser é a primeira ideia que se apresenta à nossa inteligência — e este ser é o ato puro. Tal ser, porém, não é um ser particular, porque o ser particular está limitado, por estar misturado de potência e de ato. Menos ainda é um ser análogo, porque este não só não está em ato, mas também nem mesmo existe. O ser puro é, pois, o Ser divino. [3]

4 É uma estranha cegueira   da nossa inteligência não considerar aquilo que vê antes de qualquer outra coisa e sem o que nada conhecer. Mas, assim como o olho, aberto às várias diferenças das cores, não vê a luz por cuja virtude vê as demais coisas ou — mesmo se as enxergar — não as adverte, assim o olho de nossa alma  , aplicado aos seres particulares e universais  , também não adverte o ser por excelência que está fora de todo gênero  , ainda que o mesmo seja a primeira noção e todos os outros seres não possam ser conhecidos senão por ele.

Por isso é verdade que "o olho de nosso espírito, perante o que há de mais manifesto   na natureza, é semelhante ao olho do morcego diante da luz" (Aristóteles, II Metaph., t. 1). Habituado às trevas dos seres criados e às imagens sensíveis, parece-lhe não ver nada — mesmo quando contempla o esplendor do Ser supremo. Não pensa que esta escuridão profunda é a mais brilhante das iluminações para o nosso espírito, assim como o olho do corpo, ao enxergar a luz pura, parece-lhe não ver nada.

5 Considera, pois, se puderes, o Ser puríssimo. Compreenderás que é impossível pensá-l’O como derivado de outro ser. Por conseguinte, deve-se necessariamente pensá-l’O como primeiro, pois não pode receber   sua existência do nada ou de outro ser. Que ser, com efeito, poderia existir por si mesmo, se o Ser puríssimo não existisse por si e de si? [4]

Este Ser te aparecerá também como eterno, não tendo absolutamente nada de não-ser e, por conseguinte, como sendo sem princípio e sem fim. Aparecer-te-á, outrossim, como não possuindo senão o ser e, por isso mesmo, sem composição mas simplicíssimo. Aparecer-te-á como privado de toda possibilidade e, por isso, atualíssimo, porque o ser possível tem em si algo do não-ser. Aparecer-te-á ainda sem sombra de imperfeição e, por isso mesmo, perfeitíssimo. Aparecer-te-á, enfim, sem diversidade alguma e, portanto, sumamente uno.

O Ser que é pura, simples e absolutamente o ser é, por conseguinte, o Ser primeiro, simplicíssimo, atualíssimo, perfeitíssimo e absolutamente uno.

6 Essas deduções são tão certas, que, para quem se faz uma justa ideia do ser, é impossível opor uma afirmação contrária: cada uma delas implica necessariamente a outra.

Com efeito, se Deus é o Ser por excelência, é absolutamente primeiro. Por ser absolutamente primeiro, não foi feito por outro nem muito menos por si mesmo. É, pois, eterno.

Se é primeiro e eterno, por isso mesmo exclui toda composição. Portanto, é simplicíssimo.

Por ser primeiro, eterno e simplicíssimo, por isso mesmo não há n’Ele mistura alguma de ato e de potência. É, por conseguinte, atualíssimo.

Por ser primeiro, eterno, simplicíssimo e atualíssimo, é, por isso, perfeitíssimo: nada Lhe falta e nada pode Lhe ser acrescentado.

Por ser primeiro, eterno, simplicíssimo e atualíssimo e perfeitíssimo, é, pelo mesmo, soberanamente uno.

E diga-se outro tanto, por razão da infinita superabundância, com respeito a todas as demais perfeições. Porque "o que se diz dum ser por infinita superabundância não pode convir senão a um só". [5]

Se, pois, o Nome de Deus designa o Ser primeiro, eterno, simplicíssimo, atualíssimo e perfeitíssimo, é impossível que não exista ou que não seja um só.

"Escuta, portanto, ó Israel  : teu Deus é o único Deus" (Dt 6,4).

Se olhas tudo isso na pura simplicidade de tua alma, serás iluminado, de certo modo, pelos esplendores da Luz eterna.

7 Ainda há mais, porém, para aumentar a tua admiração. Com efeito, este Ser é, ao mesmo tempo, primeiro e último, eterno e presentíssimo, simplicíssimo e máximo, atualíssimo e imutabilíssimo, perfeitíssimo e imenso, soberanamente uno e, no entanto, onímodo.

Se considerares todas essas coisas com espírito puro, serás penetrado de maior luz, porque verás que Deus é precisamente o último por ser o primeiro. Sendo, efetivamente, o primeiro, Ele cria tudo em vista de Si mesmo. É mister, pois, que seja o fim último de todas as realidades — isto é, o começo e a consumação, o Alfa e o Ômega.

Verás que é presentíssimo, precisamente porque é eterno. Sendo eterno, não procede de nenhum outro. Nem cessa de existir nem passa dum estado   para outro. Portanto, não tem passado   nem futuro, mas é só presente.

Verás que é o maior porque é simplicíssimo. Simplicíssimo na sua essência, deve ser o maior no seu poder, porque "quanto mais concentrado é o poder em um, tanto mais infinito   é" (palavras do autor anônimo do Liber de Causis, Prop. 17).

Verás que é imutabilíssimo porque é atualíssimo. E, enquanto tal, é Ato puro. Ora, aquele que é pura atualidade nada de novo adquire nem nada perde do que tem. Não admite, pois, mudanças.

Verás que é imenso porque é perfeitíssimo. Sendo a perfeição absoluta, não se pode pensar nada que seja melhor, mais nobre, mais digno e, consequentemente, maior do que Ele. Tal Ser é imenso.

Enfim, verás que é onímodo porque é soberanamente uno. Sendo soberanamente uno, é princípio universal   de toda a multiplicidade dos seres. Por isso mesmo é sua causa   eficiente, exemplar   e final — isto é, "a fonte   de sua existência, a luz de sua inteligência e a norma de sua vida" (S. Agostinho, VIII De civitate Dei  , cap. 4).

O Ser puríssimo é, portanto, tudo, não como se fosse a essência de todas as coisas, mas enquanto é a causa perfeitíssima, universalíssima e suficientíssima de todas as essências — causa cujo poder, por ser soberanamente una na sua essência, é sumamente infinito e múltiplo na eficácia.

8 Recapitulando, digamos: O Ser puríssimo e absoluto — isto é, o Ser por excelência — é o primeiro e o último. Por isso é a origem de todas as coisas e o fim que as consuma.

Enquanto eterno e onipresente, abrange e penetra toda a duração do Tempo como se tosse seu centro   e sua circunferência.

Sendo simplicíssimo e máximo, é tudo em todas as coisas e é tudo fora das mesmas. É como que "uma esfera inteligível, cujo centro está em toda a parte e cuja circunferência está em nenhum lugar". [6]

Enquanto atualíssimo e imutabilíssimo, "permanecendo estável, dá movimento   a todo o Cosmo" (Boécio, III De Consolatione Philosophiae, Metr. 9).

Enquanto perfeitíssimo e imenso, está dentro de todas as coisas — sem ser, porém, incluído por nenhuma — fora de todas as coisas — sem estar, contudo, excluído delas — acima de todas as coisas — sem estar, porém, prostrado.

domo sumamente uno e onímodo, é "tudo em todas as coisas" (1 Cor 15,28), embora elas sejam numerosas e Ele um só. A razão disso está em que na sua simplicíssima unidade, puríssima verdade e autenticíssima bondade, possui todo o poder, toda a essência exemplar e toda a comunicabilidade. Por isso, todas as coisas "são d’Ele, por Ele e n’Ele" (Rom 11,36), porque é todo-poderoso, infinitamente sábio e absolutamente bom.

Vê-l’O perfeitamente é possuir a felicidade  , de acordo com a palavra dita a Moisés: "Eu mostrar-te-ei todo bem" (Êx 33,19).



[1S. Agostinho, De Diversis Quaestionibus LXXXIII, Quest. 5, nn. 3-4. Aliás E. Bettoni considera este capítulo do Itinerário, pela sua sobriedade e poder dialético, um dos exemplos mais admiráveis em que S. Boaventura "em poucas páginas sintetiza as mais elevadas especulações humanas em torno aos atributos divinos". Op. cit., p.57.

[2É óbvio que a "definição" que Deus dá a si mesmo em Êxodo 3,14 não é — nem pretende ser — uma expressão metafísica da essência divina, mas sublinha vigorosamente a presença salvífica e pessoal de Deus na história. "O nome de Jahveh, sob o qual se manifesta, responde à obra que persegue. Sem dúvida alguma este nome comporta um mistério; por si mesmo diz algo inacessível: ‘Eu sou aquele que sou’ (3,14); ninguém pode forçá-lo, nem mesmo penetrá-lo. Mas diz também algo positivo, uma presença extraordinariamente ativa e atenta, um poder invulnerável e libertador, uma promessa inviolável: ‘Eu sou’. O verbo ser, ao qual certamente faz alusão o nome de Jahveh, se não expressa imediatamente o conceito metafísico da existência absoluta, designa em todo caso uma existência sempre presente e eficaz, um adesse (estar-presente) mais do que um esse (ser). Mas esta presença abrange o universo desde o seu primeiro dia até o último, e unifica o passado, o presente e o futuro". Xavier Léon-Dufour (ed.), Vocabulaire de Théologique Biblique (Les Editions du Cerf, Paris 1962), art. Dieu, col, 218. Mas — segundo a feliz formulação de Etienne Gilson - E. Gilson — "se não há metafísica no Êxodo, há uma metafísica do Êxodo e vemo-la se constituir bem cedo nos Padres da Igreja, dos quais os filósofos da Idade Média não fizeram senão seguir e explorar as diretivas neste ponto". L’Esprit de la Philosofia Médievale (Libr. Philosophique J. Vrin, Paris 1948) p.50, nota 1.

[3"Quando Deus diz que Ele é o ser, se o que Ele diz tem para nós um sentido racional qualquer, é em primeiro lugar que o nome que Ele se deu significa o ato puro de existir. Ora, este ato puro exclui a priori todo não-ser. Da mesma maneira que o não-ser não possui absolutamente nada do ser nem de suas condições, assim também o Ser não é afetado por nenhum não-ser, nem atualmente nem virtualmente, nem em si nem do nosso ponto de vista. Ainda que leve na nossa linguagem o mesmo nome que o mais geral e o mais abstrato de nossos conceitos, a ideia do Ser significa, pois, algo radicalmente diferente". É claro que para S. Boaventura esta capacidade para conceber o ser abstrato está estreitamente ligada à relação ontológica que nos suspende em Deus — a problemática de Deus é, filosoficamente, inseparável da problemática gnoseológica: cf. cap. III, nota 3 e 10. "Mas não é como um conceito que Deus nos convida a pô-lo, nem mesmo como um ser cujo conteúdo seria o dum conceito. Para além de todas as imagens sensíveis e todas as determinações conceituais, Deus se coloca como o ato absoluto do ser na sua pura atualidade. O conceito que d’Ele nós temos, fraca analogia duma realidade que a transborda por todas as partes, não o podemos explicitar senão neste juízo: O Ser é o Ser, posição absoluta do que, estando para além de todo objeto, contém em si a razão suficiente dos objetos. Por isso se pode dizer com razão que o excesso mesmo de positividade que oculta a nossos olhos o ser divino é, contudo, a luz que esclarece tudo o mais: ‘esta escuridão profunda é a mais brilhante das iluminações para o nosso espírito". Etienne Gilson - E. Gilson, L’Esprit..., pp.52-51.

[4Seja o que for do assim chamado "argumento" de S. Anselmo (cf. Proslogion, cap. 4), a habitual censura levantada contra ele — passagem ilegítima da ordem ideal para a ordem real — não pode ser dirigida, segundo E. Bettoni, contra a argumentação de S. Boaventura. "A ideia de Deus, da qual ele parte, não é uma ideia constituída pela minha mente, nem pela mente de nenhum homem, mas uma ideia que se impõe e é vivida na mente de cada um. Não é senão o testemunho duma presença real e é uma força que me faz pensar e, neste sentido, não depende da minha mente, mas, antes, é superior a ela. Portanto, na argumentação de S. Boaventura não se infere uma realidade a partir duma ideia, mas se descobre uma realidade que está sob e se revela através duma ideia, na qual, por assim dizer, esta realidade age. Portanto, nenhum homem pode seriamente negar a existência de Deus, desde que pense e julgue em virtude de Deus e neste sentido o experimente. (...) Aquelas que soem chamar-se demonstrações da existência de Deus não são senão considerações dirigidas a formar-nos um conceito exato de Deus, isto é, determinar exatamente a ideia confusa que d’Ele temos". Op. cit., p.56. Segundo Etienne Gilson - E. Gilson. S. Boaventura teria visto muito bem que "a necessidade do ser de Deus quoad se (considerado em si mesmo) é a única razão suficiente de sua existência quoad nos (considerado com relação a nós). (...) Toda a metafísica bonaventuriana da iluminação está atrás deste texto, prestes a explicar por uma irradiação do ser divino sobre nosso pensamento a certeza que nós temos de sua existência". L’Esprit..., p.60. Cf. ainda do mesmo Autor, La Philosofia..., pp.101-118.

[5Aristóteles, V Topic. cap. 3. Cf. ibid., VII, cap. 1. A tradução que desta passagem faz Ch. de Bordeaux, com bastante independência, exprime assim o sentido da conclusão: "Estes atributos devem ser tomados não só em superlativo relativo, que estabelece uma comparação com os outros seres, mas também em superlativo absoluto. Deus não é somente o mais perfeito dos seres, mas é a perfeição mesma; ora, a perfeição absoluta não pode convir senão a um só". Op. cit., p.138.

[6Alano de Lilla, Theologicae Regulae, Regul. 7. Diz aí, explicando essa expressão, que a criatura é centro porque assim como o tempo, comparado com a eternidade, é apenas um momento, assim também a criatura, comparada com a imensidade divina, é só um ponto ou um centro.