Página inicial > Oriente > Extremo Oriente > Tao - Dao > Matgioi: O Te

La voie rationnelle

Matgioi: O Te

O Livro do Te

segunda-feira 8 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

MATGIOI  . La voie rationnelle. Paris: Éditions traditionnelles, 1984

    

O segundo livro sagrado   do Taoismo   forma com o primeiro um todo completo; é ao mesmo tempo distinto como uma aplicação pode ser distinta de seu princípio.

Laotseu   fez destes dois   livros, um só tratado, ou como dizem os chineses um Ching ou King; pensava ele que o primeiro livro só seria útil   se o leitor se aplicasse o segundo; e o segundo só seria inteligível e adequadamente empregado, quando o primeiro tivesse sido digerido e compreendido. Por isto estes dois livros estão reunidos sob um único título Tao Te Ching  .

Como explicado na «Via Metafísica  », o primeiro livro, O Tao, a «Via», é a explicação racional dos problemas cosmogônicos e metafísicos, contidos nos textos da tradição   primordial chinesa, e especialmente no I Ching  : a Via — que é o Tao de Laotseu — é precisamente o ciclo   helicoidal simbólico que a «criação» (para falar a linguagem ocidental) percorre ao longo do «dia de Brahma  »; é a série de modificações do I Ching, aí compreendido a modificação   final, a Transformação, que termina e coroa a Criação. Assim temos descrito a Via, de movimento   imutável   e eterno, ao longo da qual, de um movimento relativo próprio, se enrolam as contingências (matéria, vida, pensamento  , força, e, entre outras coisas, as humanidades), e na qual, quando elas aí entram, se destroem estas contingências, enquanto formais, para nada ser mais que participantes parcelares do absoluto.

O Te de Laotseu é o livro da razão, segundo o qual o humano, conformado tal como o sabemos hoje em dia, pode compor suas ideias, seus meios, e mesmo sua conduta, do momento que conheceu o Tao, e que sabe onde é dirigido pela vontade do Céu, e como ele pode, temporária e meritoriamente, se conformar a esta vontade, e se preparar relativamente a dela receber   os efeitos.

O Te é assim a aplicação do Tao ao composto humano sobre a Terra  . Não tem portanto os caracteres metafísicos do Tao; tem todos os caracteres racionais de um princípio eterno e intangível, que para o bem dos seres parcelares, se reduz a contingências, e se reduz aos limites formais. Vê-se assim como o Te é distinto do Tao, e como só se pode chegar ao Te pelo Tao. Aqueles que sem conhecerem o Tao, ensaiam se conformar ao Te, fazem uma obra falida e se consumam em vão; só podem esperar a aparência vazia de seu ideal. O Te se ressente portanto de sua origem celeste, e necessita estar constantemente revestido da atmosfera metafísica do Tao.

O caráter Te significa a Virtude, ou a Retidão  , quer dizer a Virtude pela Lógica   e pela Razão. Mas no sentido corrente a Retidão é a «linha reta»; sendo deste modo o símbolo preciso do Tao sob a forma terrestre.

Matgioi   se refere ao esquema metafísico onde inscreveu em poucas linhas o Ciclo taoísta, e ao raciocínio que se valeu para tal: 1) que o ciclo universal   era uma hélice de elementos   definíveis, salvo um; 2) que, no cilindro fictício da Vontade Celeste, o circulus vital de uma humanidade qualquer era um círculo, tangente em um ponto qualquer da corda ascendente, e perpendicular ao passo da hélice, tomado neste ponto sobre a superfície lateral do cilindro.

Este esquema cilíndrico se tornava cônico ao infinito  , e como o topo deste cone ao infinito metafísico (em oposição ao infinito matemático, além do qual o cone se revolve em napas inversas) era precisamente a Vontade Celeste, e o lugar metafísico do Nirvana  . A espiral evolutiva sobre o cilindro — e ao infinito sobre o cone — representa o Tao, ou a via transformadora. Projetando-se o todo   sobre o círculo vital humano que se acaba de traçar no interior do cilindro fictício, nas condições que acabamos de dizer, e que respondem às condições metafísicas que regem à vida humana. A Vontade Celeste se projeta para o centro do círculo, a espiral se projeta em um diâmetro, que é o diâmetro tirado do ponto comum à hélice e à circunferência. Este diâmetro, que é a imagem da espiral ascensional durante a vida, tem dois pontos sobre-humanos, o ponto que pertence à hélice do Tao, o ponto que é a projeção   da Vontade do Céu. E este diâmetro é uma linha reta. Logo — e o símbolo gráfico o diz necessariamente — o homem   que quer seguir os ensinamentos do Tao, deve, durante sua vida, seguir uma linha reta, quer dizer obedecer à Retidão, praticar a Virtude. Pois, pelo efeito dos ideogramas, a linha reta, a Retidão e a Virtude se traduzem por um único caractere, que é o Te.

René Guénon no Simbolismo da Cruz nos oferece um excelente resumo deste «modelo» de Matigioi, nos capítulos XVIII-XXIII.

TRADUÇÃO DO LIVRO DO TE (completa)

I. Uma grande virtude não é a virtude; mas ser assim, eis vir a virtude. Uma virtude medíocre não é a ausência   de virtude; mas ser assim, eis partir a virtude. Uma grande virtude não se manifesta, porque não quer se manifestar; uma virtude medíocre se manifesta porque quer se manifestar. Em seguida o homem manifesta uma grande piedade   (humanidade), sem se dar conta; em seguida manifesta uma grande equidade, e tende a se dar conta; em seguida manifesta uma grande generosidade (solidariedade e bons modos  ), mas não lhe serve, e consola os outros. — A Via perdida, ele [o homem] guarda a virtude: a virtude perdida, ele guarda a piedade; a piedade perdida, ele guarda a equidade; a equidade perdida, ele guarda os ritos   (generosidade, solidariedade, bons modos). Esta aí, mesmo pequena, é verdadeiramente o começo do mal. Eis o que sabem há muito tempo os homens que conhecem a Via; eles souberam isso em primeiro lugar. Também o Sábio   se associa por toda parte ao Absoluto, em nenhuma parte ao contingente; ele permanece no princípio, e se afasta do efeito. Ele negligencia esta coisa aqui e conserva aquela aí.

Ver online : TAO