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O samadhi do verde-azul

Joppert (SV) – Dao

sexta-feira 2 de setembro de 2022, por Cardoso de Castro

    

DAO   (TAO): O ABSOLUTO  . As Essências básicas: Yin   e Yang. A interação no mútuo despertar   das Essências.

    

O Dao   não é, todavia, apenas Princípio: o Dao transmite-se à sua criação, aloja-se, sob a forma de centelha, no que irradia.

Para o Ser  , os chineses conceberam um Grande Começo — (Taichu), gerado no indefinível potencial de energia cósmica, de caos   pré-cósmico  : uma característica imanente ao Dao, a mutação (Yi), desencadeia o movimento   espontâneo   (ziran) de duas Essências polares potencialmente imersas no Absoluto. "Um aspecto Yang  , um aspecto Yin, eis o Dao, diz-nos o Yijing — o Livro das Mutações   —. Uma dessas Essências — Yin — é de natureza receptiva; a outra — Yang — é dinâmica. Os opostos   complementam-se para completar-se; por catalise há união  : Yang realiza sua potência de ação na passividade de Yin.

No Não-Ser do Não-Ser (Wuwu), Essência   original do Dao, ocorre uma mudança   de estado  : há uma expansão para o Não-Ser (Wu), potencialmente capaz de metamorfosear-se em Ser (You). Wu é contrapartida, causa   de You, no que difere de Wuwu, o Vazio   sem correlato, Verdade Última. Wu, Éter primevo onde nada existe, toma um novo aspecto, decorrente do movimento inicial, no seio de Wuwu, de Yang em direção   a Yin: algo passa a existir, uma nova Essência resultante da interrelação — a Unidade   (Yi), o Yin-Yang em conjunto  , o Ser Absoluto (You) (Pan Gu) ainda sem qualquer particularização. You é, assim, o Éter primordial sob outro aspecto: o de Criação Infinita, sem forma, mas já consubstanciando uma Norma Básica natural — uma ordem gerada no todo desordenado de Wu: uma Harmonia   (he), que resulta de Yin-Yang. Por isso, o Livro das Mutações (Cap. XI do Xici ou Grande Apêndice do Yijing) estabelece: «A Mutação (de»Não-Ser«»Wú«— a»Ser«— You») (já) se apoia na Viga-Mestra   (Taiji)".

Dao é Luz Incubada (Cf. Zhuangzi, cap. 2 Wieger   pg. 222.). Wuwu — o Não-Ser do Não-Ser — é o centro   de uma circunferência; Wu — o Não-Ser — vai desse núcleo às bordas da circunferência. Sua potencialidade vai desenvolver-se, quando o círculo se abre e se metamorfoseia em dois   semi-círculos, um, inferior   e outro, superior, cujo diâmetro é o mesmo. Subdividido, o círculo primitivo apoia-se nesse diâmetro de origem, uma linha reta e vertical (zhi) — o Yang — cuja vocação é movimentar-se (ji  ), expandir-se na criação do quadrado. Yin, em sua tranquilidade   receptiva (Jing), que se concentra (Zhen) vai propiciar, acolher   — vai discernir (Jian) — o impulso de Yang e o Dao manifesta-se através de uma Eficácia Realizadora (De). O círculo primitivo, subdividido nos dois semi-círculos que compartilham o mesmo diâmetro (a Viga-Mestra da Unidade simples em expansão), transforma-se num quadrado, produto da harmonia Yin-Yang. (Cf. Zhuangzi, cap. 2 Wieger pg. 222, combinado com o parágrafo 1 do Wenyanahuan, Wei Tat, An exposition of the I-Ching, pg. 481). A mutação é um processo contínuo  , ininterrupto: a impermanência   é a única lei permanente. 0 quadrado, produto da expansão, vai, ele mesmo, expandir-se: abre-se, rompem-se suas linhas, segue-se a gênese descrita no capítulo XI (seção I) do Grande Apêndice do I Ching - Yijing:

«Nas mutações está presente   a Viga-Mestra (Taiji); Dela vieram os dois Emblemas primordiais; Os dois Emblemas geraram as quatro Imagens; As quatro Imagens geraram os oito Trigramas  ».

Yang tem como emblema a linha reta —; Yin, a linha dividida - -. Interagindo constantemente por efeito de sua própria natureza criatória (que leva à perfeição pela conjunção — fricção (Mo) — Yin-Yang (os dois Emblemas) partem-se (fen) (Zhuangzi cap. 12, Wieger, pg. 298), decompondo o quadrado e produzindo quatro Imagens (Sixiang) que, entretanto, é necessário recordar, são apenas resultado da expansão da Unidade Inicial (Taiji) do Ser Absoluto (You). ⚍ é o emblema do Yin jovem; ⚎ é o Yang jovem. A intermitência do processo criatório vai necessariamente obrigar o seguimento das metamorfoses (hua): a linha una de ⚎ (Yang jovem) parte-se, originando o Yin maduro ⚏; a linha dividida do Yin jovem vai transmutar-se em linha una, criando um Yang maduro, isto é, pleno  : ⚌. O ritmo criatório atinge um final de ciclo: as Essências (Yi), transmutadas em Imagens (Xiang), entram num Estado de Paz (Realização   Completa), definido pela palavra Ning que, por sua vez, se combina com Jing (Receptividade Yin) e tem reinicio o ciclo de mutações...

O ciclo dos diagramas está completo com as Imagens. Permanece, entretanto, o ímpeto de criação: transformações, metamorfoses, equivalem ao avanço e ao retrocesso das (linhas das) Imagens (Grande Apêndice, Yijing, seção I, cap. II. Bian hua zhe jin tui zhi xiang ye). Uma nova linha nasce, produzindo um tri-grama (gua): as quatro Imagens multiplicam-se em oito — esses oito trigramas (Ba gua) são os emblemas de um novo ciclo (expandido) criatório:

Bagua
QIAN (Yang Puro) ☰
KUN   (Yin Puro) ☷
ZHEN (Trovão) ☳
SUN (Vento  ) ☴
DUI (Lago) ☱
GEN (Montanha  ) ☶
LI (Fogo  ) ☲
KAN (Água) ☵

A UNIDADE E A TRÍADE

Os números, para os chineses, são emblemas de elementos   entre os quais se decompõe o total (Cf. Marcel Granet  , La Pensée Chinoise, pg. 126); eles têm um valor   qualificativo, portanto, e despem-se de implicações quantitativas ou ordinais.

As individualidades do Ser são encaradas como centelhas que lançam o tecido energético do Dao em estado absoluto de criação — YOU — (Pan Gu), a Viga-Mestra que sustem existências somente na aparência fragmentária: a Essência Matriz irradia essências que se condensam através de canais de sopro de vida (Qi). Assim, TAIJI é a Unidade Simples, que vai expandir-se no Dois, número  -emblema de polaridades que se completam; da Harmonia (HE) desse inter-relacionamento gera-se o Três, que produz, por sua vez, o fruto   da manifestação   da Unidade

Dao sheng Yi (O Dao produziu a Unidade)
Yi sheng Er (A Unidade produziu o Dois)
Er sheng San (O Dois produziu o Três)
San sheng Wanwú (O Três produziu os Dez Mil Seres)
Wanwú fu Yin (Os Dez Mil Seres carregam o Yin)
Er bao Yang (Mas abraçam Yang)
Chong Qi yiwei He (No sopro da vida do Vazio consideram encontrar a Harmonia)

Três é a Unidade que se afirma: há, portanto, um resultado do movimento de expansão mas não há desligamento da Raiz inicial Três é a Unidade em dinamismo, assim como Um é a Tríade em retração. Entre esses dois aspectos, nenhum conflito, absoluta identificação. Entretanto, o ser diversificado tem a vocação de reunificar-se, de reconhecer   sua origem —, assim como os galhos (mo) são apenas o desenvolvimento da raiz (ben) e dela não podem prescindir: a centelha infinita está presente na multiplicação de todos os seres mas a volta à Viga-Mestra não pode mais fazer-se pela Unidade Simples, Unidade perdida, porque sua expansão foi real. O ser individual deve abandonar a angústia   da fragmentação aparente através da UNIDADE TRÍPLICE, que é seu estado de Verdade após a mutação sofrida: de alguma maneira, o ser produzido pela Harmonia (He) dos polos complementares deve imitar o movimento da Matriz que o gerou. Sua vocação unitária só pode realizar-se através do reconhecimento de identidade   com o mundo que lhe é exterior: o sujeito   deve aceitar o objeto, para atingir a própria diluição. O retorno à Unidade não pode realizar-se pela Unidade Simples — é na Unidade Tríplice que vai ter fim o conflito da fragmentação. Assim, o sujeito não pode prescindir de um objeto (e vice-versa), a fim de que possa haver uma complementação que resulte numa Harmonia. Reencontro de essências fundamentalmente idênticas que, justamente através do mútuo reconhecimento, produzam um resultado (uma mutação) que possibilitará a retração (SUN) (Cf. Laozi cap. 48: Wei Dao ri Sun: Para imitar o Dao, diariamente deve haver retração). O CAMINHO   DE VOLTA DEVE NECESSARIAMENTE SER ANÁLOGO AO DE IDA. . .


Ver online : Ricardo Joppert