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Burckhardt Astrologia Ibn Arabi

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

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Resumo de "Clé spirituelle de l’Astrologie Musulmane d’après Moyiddîn Ibn Arabi  ", por Titus Burckhardt  

  • A obra escrita de Ibn arabi   comporta certas considerações sobre a astrologia que permitem entrever como esta ciência pode se associar a princípios metafísicos.
    • A astrologia difundida na Idade Média nas civilizações cristãs e islâmicas, como ainda subsiste em alguns países árabes deve sua forma ao Hermetismo alexandrino.
    • Ela não teria como encontrar um lugar na perspectiva religiosa das tradições monoteístas, dada a responsabilidade do indivíduo perante seu Criador, e a impossibilidade de algo que possa velar esta relação pela consideração de causas intermediárias.
    • Sua presença nestas tradições se deve ao seu simbolismo muito primordial, revelando a penetração contemplativa da ambiência cósmica, e a identificação espontânea das aparências constantes e rítmicas do mundo sensível, com seus protótipos eternos.
    • Os dados da astrologia hermética se enquadram no edifício da cosmologia de Ibn Arabi  ; resumido por um esquema de esferas concêntricas, tendo como ponto de partida e como termo de comparação o sistema geocêntrico do mundo planetário da astrologia medieval.
    • Burckhardt defende a "naturalidade" do sistema geocêntrico, sua conformidade com a realidade como se apresenta imediatamente aos olhos humanos; valorizando a "subjetividade" e ao mesmo tempo a centralidade do ser humano, diante do mundo terrestre e celeste ao seu redor; o sistema heliocêntrico provocou um desequilíbrio intelectual, dada a extensão "artificial" do conhecimento empírico para algo de "anormal" aos sentidos humanos.
    • Ibn Arabi   considera a importância do sol em seu sistema, designando-o como "pólo" (qutb) e "coração do mundo" (qalb al-alam), e colocando-o no esquema na posição central das esferas celestes, com um mesmo número de céus superiores e inferiores ao céu do sol. O sol se encontra no meio dos planetas conhecidos na época (abaixo do sol: Lua, Mercúrio, Vênus; acima: Marte, Júpiter e Saturno); além de Saturno, então se situam o céu das estrelas fixas, o céu não estrelado, as duas esferas supremas do Pedestal divino (al Kursi) e do Trono divino (al-Arsh), ou seja, últimas instâncias de esferas concêntricas às quais correspondem simetricamente as quatro esferas, mais internas no esquema: as esferas sublunares do éter, do ar, da água e da terra. Assim se repartem sete graus de cada lado da esfera do sol, o Trono divino simbolizando a síntese de todo o cosmos, e o meio da terra sendo ao mesmo tempo o limite inferior e o centro de fixação do esquema.
    • A experiência sensível vislumbra algo das esferas planetárias e das estrelas fixas; quanto as esferas sublunares (éter, ar, água), vislumbra-se uma hierarquia teórica seguindo os graus de densidade; as esferas supremas, Pedestal e Trono, marcam a passagem à cosmologia integral e à metafísica, sendo denominados "mundo invisível"; o céu sem estrelas indica o "fim" do espaço, a descontinuidade entre o formal e o informal, e corresponde ao céu das doze torres ou signos do zodíaco, representando neste caso "determinações virtuais"e não as doze constelações zodiacais.
    • Não fazendo distinção entre a realidade corporal dos céus planetários e sua ordem sutil, posto que o símbolo se identifica essencialmente com a coisa simbolizada, as esferas planetária são ao mesmo tempo partes do mundo corporal e graus do mundo sutil; o céu sem estrelas, no limite do mundo sensível, engloba todo estado humano, incluindo os prolongamentos superiores deste estado (os estado paradisíacos se encontram entre o céu das estrelas fixas e o céu sem estrelas, segundo Ibn Arabi  ). O céu das torres zodiacais é portanto o lugar dos arquétipos, em relação ao estado humano.
    • O que se encontra além do céu das estrelas fixas, entre este e o céu sem estrelas se mantém na duração pura, sendo o que está abaixo submetido à geração e à corrupção. A esfera do céu supremo que é o primum mobile aristotélico está identificado assim ao mundo incorruptível, enquanto o movimento evolui no tempo.. A revolução do mais vasto céu, sendo a medida fundamental do tempo segundo todos os demais movimentos são mensurados, não está submetido a medida temporal, o que corresponde assim à indiferenciação da duração pura. As diferentes esferas do mundo planetário se escalonam a partir dos limites indefiníveis do espaço até o meio terrestre, como graus sucessivos de "contração" temporal (razão pela qual a hierarquia astrológica dos céus planetários situa mercúrio entre Vênus e Terra, posto que Mercúrio se move mais rápido que Vênus, embora este planeta esteja mais próximo da Terra e Mercúrio mais próximo do Sol).
  • O simbolismo astrológico reside nos "pontos de junção" das condições fundamentais do mundo sensível, e principalmente nas junções do tempo, do espaço e do número.
    • Definição de regiões ou partes da grande esfera do céu sem estrelas por meio de pontos de referência que oferecem as estrelas fixas coincide, em astronomia, com a definição das divisões do tempo. A esfera-limite do céu só é medida em razão das direções do espaço; ao se falar de partes do céu, se definem direções; estas são a expressão da natureza quantitativa do espaço, de modo que os limites do indefinido espacial se reintegram de alguma maneira no aspecto qualitiativo em questão, o conjunto das direções que irradiam de um centro contendo virtualmente todas as determinações espaciais possíveis (vide capítulo sobre o espaço qualificado, em Guenon Reino da Quantidade).
    • A expansão extrema e indefinida destas direções é a abóboda do céu não estrelado e seu centro é cada ser vivo que se encontra sobre a terra, sem que a "perspectiva" das direções difira de um indivíduo para outro, posto que nossos eixos visuais se coincidem quando fixamos um mesmo ponto da abóboda celeste - coincidência do ponto de vista microcósmico com o "ponto de vista" macrocósmico (note-se como cada espectador do sol levante no mar, vê os raios refletidos na superfície do mar vindo em sua direção, e acompanhando-o em seu deslocamento).
    • É preciso distinguir as direções "objetivas", iguais para todos os seres terrestres olhando céu em um mesmo instante, e as "subjetivas", determinadas pelo zênite e o nadir individual; justamente na comparação destas duas ordens de direções do espaço celeste se encontra a base do horóscopo. A indefinidade das direções do espaço é em si mesma indiferenciada, contendo virtualmente todas as relações espaciais possíveis. Mas as qualidades destas direções do espaço celeste são interdependentes, ou seja, uma vez definida uma direção ou um ponto da esfera-limite que lhe corresponde, todo o conjunto das outras direções se diferencia e se polariza em relação àquela. Razão pela qual Ibn Arabi   afirma que as divisões do céu não estrelado ou do céu das "torres" zodiacais são "determinações virtuais" que não se diferenciam a não ser em relação ao céu das "estações" dos astros.
    • Os pontos fixos do céu das estações são pólos respectivos da revolução diurna do céu (ou da terra) e do ciclo anual do sol, e assim sendo os pontos que a divergência destes pólos determina sobre a eclíptica, quer dizer os dois equinócios, pontos de interseção da órbita solar com o equador, por um lado, e os dois solstícios, pontos extremos das duas fases, ascendente e descendente, do ciclo solar, por outro lado. Fixados estes quatro pontos da eclíptica, as outras oito divisões zodiacais lhes respondem em razão de partições ternárias e senárias inerentes ao círculo, como exprime a relação entre raio e e as proporções do hexágono inscrito no círculo. Produz-se uma cristalização espontânea das relações espaciais, cada ponto do quaternário evocando dois outros pontos de um trígono, que popr sua vez repetem a relação em "quadrado", de maneira a que a divisão do círculo por quatro se encontre integrada e compensada por uma síntese "congenital" à natureza "universal" do ciclo, segundo a fórmula: 3 x 4 = 4 x 3 =12.
    • Se os dois grandes círculos, o do equador celeste e o solar, coincidem, as estações não se manifestariam. A divergência dos dois grandes ciclos exprime a ruptura de equilíbrio que dispara uma certa ordem de manifestação, de contrastes e de complementos. e os quatro pontos cardeais, determinado por esta divergência, são de fato as marcas deste contraste. Ibn Arabi   identifica o quaternário zodiacal com aquele das qualidades ou tendências fundamentais da Natureza total ou universal (at-tabi’ah), que é a raiz de todas as diferenciações. Esta Natureza total não é a Substância universal como tal, primeiro princípio passivo que a doutrina hindu denomina Prakriti e Ibn Arabi   chama de al-haba ("Substância") ou de al-unçur al-a’zam ("Elemento supremo"), mas trata-se de uma determinação direta considerada particularmente sob seu aspecto de "maternidade" a respeito das criaturas.
    • A Natureza universal, não manifestada nela mesma, se manifesta por quatro qualidade ou tendências fundamentais que aparecem na ordem sensível como calor e frio, secura e umidade. As duas primeiras qualidades ativas, em oposição mútua, manifestando-se como força expansiva e força contrativa, determinam a parelha de qualidades passivas, a secura e a umidade (a medicina tradicional muçulmana reduz todas as doenças a manifestações desequilibradas destas quatro tendências). Relacionadas aos pontos cardeias: frio -> dois solstícios; calor -> dois equinócios. Os signos cardeais se sucedem por contrastes; mas as qualidades passivas da secura e da umidade associam duas parelhas. As qualidades da Natureza também de juntam duas a duas na natureza dos quatro elementos ou fundamentos do mundo sensível, produzidos a partir da substância terrestre: a terra, fria e seca; a água, fria e úmida; o ar úmido e quente; o fogo, quente e seco. Estas qualidades elementares se aplicam aos signos do zodíaco: Áries, do fogo; Câncer, da água; Libra, do ar; Capricórnio, da terra. O zodíaco só comporta modelos celestes dos quatro elementos e estes modelos permanecem compostos das quatro tendências da Natureza total, como afirma Ibn Arabi  .

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