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O Mundo como Vontade e como Representação Tomo I

Schopenhauer (MVR1:380-381) – querer não pode ser ensinado

Livro IV, §55

terça-feira 14 de setembro de 2021, por Cardoso de Castro

      

[Excerto   de SCHOPENHAUER  , Arthur. O mundo como vontade e como representação. Primeiro Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo: Editora UNESP, 2005, p. 380-381]

      

Como os motivos que determinam o fenômeno   do caráter, ou o agir, fazem efeito sobre ele mediante o médium do conhecimento, e o conhecimento, por seu turno, é variável, oscilando constantemente entre erro   e verdade, porém via de regra   retificando-se cada vez mais no curso da vida, embora em graus muito diferentes, vem daí que a conduta de um homem   pode variar notavelmente sem que com isso se deva concluir sobre a mudança em seu caráter. O que o homem realmente e em geral quer, a tendência de seu ser mais íntimo e o fim que persegue em conformidade a ela, nunca pode mudar   por ação exterior sobre ele, via instrução; do contrário, poderíamos recriá-lo. Sêneca diz admiravelmente: velle non discitur [1]. Ocasião na qual preferia a verdade ao doutrinamento dos estoicos  , que diziam: διδακτήν ἐίναι την αρετήν (doceri posse virtutem). [2] Do exterior, a vontade só pode ser afetada por motivos. Estes, todavia, jamais podem mudar a Vontade em si mesma, pois têm poder sobre ela apenas sob a pressuposição de que a mesma é exatamente tal como é. Tudo o que podem é, portanto, mudar a direção do seu esforço, noutros termos, fazê-la procurar o que inalteradamente procura por um caminho   diferente do até então seguido. Por conseguinte, instrução e conhecimento aperfeiçoado, vale dizer, ação do exterior, podem até ensiná-la que errou nos meios e assim fazê-la buscar o fim pelo qual se esforçava, de acordo com a sua essência íntima, por um caminho inteiramente outro e até mesmo num outro objeto; jamais, entretanto, podem fazer com que realmente queira de maneira diferente do que quis até então, o que permanece inalterável, pois a Vontade é apenas este querer mesmo, que do contrário teria de ser superado. Entrem entes, aquele primeiro, isto é, a modificabilidade do conhecimento e, por meio deste, do agir, vai [I 348] tão longe que a vontade procura atingir seu fim invariável, por exemplo o paraíso de Maomé, ora no mundo real, ora num mundo imaginário, adaptando a cada vez os meios e assim empregando num primeiro momento astúcia, força e engodo, no outro abstinência, probidade, esmolas, peregrinação a Meca. Porém, nem por isso o esforço mesmo da Vontade mudou, muito menos ela mesma. Decerto sua ação se expõe bastante diferentemente em tempos diferentes, mas por outro lado seu querer permanece exatamente o mesmo. Velle non discitur.


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[1“O querer não pode ser ensinado.” (N. T.)

[2“A virtude pode ser ensinada.” (N. T.)