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Larchet Phronesis

terça-feira 29 de março de 2022

    

Excertos traduzidos da TDE - TERAPÊUTICA DAS DOENÇAS ESPIRITUAIS

O pecado   tornou doentes as dynamis   - faculdades humanas de conhecimento. O homem  , se desviando de Deus   para se voltar para as realidades sensíveis, se tornou ignorante de Deus e da natureza verdadeira dos seres criados. É somente depois de ter sido liberado de todas as paixões, ao término da praxis  , que o homem poderá ser curado desta dupla ignorância: daquela das razões espirituais das criaturas, ele encontrará então a sabedoria  ; daquela de Deus, em seguida, em um conhecimento (gnosis  ) que receberá do Espírito   se é digno. É então que encontrará a perfeita Saúde   de suas faculdades de conhecimento.

Mas ao nível mesmo da praxis, e desde o início de sua operação, deve reencontrar o bom uso de suas faculdades de conhecimento que necessita esta: este bom uso se manifesta em primeiro lugar na virtude da prudência   (phronesis).

Em seguida ao pecado, o homem adquiriu um conhecimento confuso do bem e do mal, tomando por critérios o prazer e a dor   em lugar da vontade de Deus: assim se afastou da prudência para se tornar insensato (aphron), para cair em um estado   de loucura (aphrosyne). Se ele quer avançar na via da conversão - conversão espiritual que consiste a se voltar do mal e a fazer o bem, ele deve ser de novo capaz de distingui-los nitidamente e sem se enganar.

A primeira função da prudência é portanto a distinção do bem, do mal e daquilo que não é nem um nem outro. A um nível superior, ela é a capacidade de distinguir nitidamente, entre as manifestações da vida interior sobretudo, o que vem de Deus ou de seus anjos   e o que procede do diabo   ou dos demônios. Ela corresponde então muito precisamente ao «discernimento   dos espíritos» do qual fala o apóstolo Paulo   (1Co 12,10).

O papel da prudência é, mais geralmente, de discernir em todas as circunstâncias a vontade de Deus.

Em todos os modos   desta primeira função, ela é assimilável à virtude de discernimento (diakrisis; discretio), e é frequentemente assim que a designam os padres. É esta virtude, lembra Cassiano   - São João Cassiano, que é chamada no Evangelho «olho da lâmpada do corpo», quando o Cristo   ensina: «O olho é a lâmpada do corpo. Se teu olho está em bom estado, todo teu corpo será iluminado, as se teu olho está em mau estado, todo teu corpo estará nas trevas» (Mt   6,22-23). «Ela discerne com efeito todos os pensamentos do homem e seus atos, examina e vê na luz o que devemos fazer». João Clímaco escreve no mesmo sentido: «O discernimento é uma lâmpada nas trevas [...]. uma luz para aqueles cuja vista é fraca»; «se queremos definir   em geral o discernimento, pode-se dizer que é uma luz interior que nos faz conhecer com certeza a vontade de Deus em todos tempos, em todos os lugares, e em todas as ações». É esta virtude, é necessário ainda notar, que o Salmista evoca quando ele pergunta a Deus: «Ensina-me a fazer Tua vontade pois Tu és meu Deus» (Sl 142,10) e ainda: «Faze-me conhecer a via onde devo andar, pois para Ti elevei minha alma  » (Sl 142,8).

Ela é portanto a virtude guia   que permite àquele que se avança na via espiritual de não se perder e de evitar quedas. «É ela também da qual é escrito que ela é o timão de nossa vida», nota Cassiano lembrando esta passagem dos Provérbios: «Quando a prudência faz falta, o povo cai» (Pr 11,14).

A prudência é em consequência a protetora das virtudes ao mesmo tempo que põe o homem ao abrigo dos ataques do mal. «Aquele que a segue, escreve Basílio, não se afasta jamais das obras da virtude e não é jamais transpassada pelo traço funesto do vício». Mais geralmente a prudência-discrição permite ao homem de conhecer seu estado interior e de se situar quanto a seu progresso espiritual, lhe dando principalmente ver o caminho   percorrido e medir aquele que resta fazer.

A segunda função da prudência é, como o nota (Evagrio  , «de dirigir as operações contra os poderes adversos, protegendo as virtudes, fazendo frente contra os vícios  , regrando tudo aquilo que é neutro segundo as circunstâncias», ou ainda de «se opôr à irascibilidade dos demônios». A prudência aparece aqui como a grande estratégia de combate   que o homem, na praxis, é inevitavelmente conduzido a levar contra o diabolos - diabo e os daimonion   - demônios.

Esta segunda função da prudência está estreitamente ligada à precedente, pois se trata não somente de distinguir claramente o que vem de Deus ou dos anjos e o que vem dos demônios, de notar os ataques destes últimos, mas ainda de discernir os modos destes ataques (que podem ser ao mesmo tempo complexos e muito variados), de despistar suas astúcias, isto não sendo possível senão pelo conhecimento seguro da vontade de Deus que indica ao homem o verdadeiro bem.

A prudência tem ainda por função, face   aos outros poderes da alma, de afirmar o hegemonikon   - caráter hegemônico da parte razoável (logistikon  ) da qual é a virtude no plano da praxis, de incitá-las em consequência a se subordinar a ela no combate a conduzir contra os demônios e as paixões. Ela guia em primeiro lugar, nesta atividade  , o poder irascível.

A prudência tem enfim por função, de uma maneira mais geral, de governar os diferentes poderes da alma e de reordená-los em fazendo-os se exercer segundo sua natureza verdadeira. Compreende-se assim que a prudência-discrição possa ser considerada por Cassiano como «a mãe   e a guardiã [...] de todas as virtudes», mas também como «a fonte   de alguma maneira e a raiz de todas as virtudes», e que João Damasceno e Isaac Sírio vejam nela «a maior de todas as virtudes»: ela é com efeito uma das virtudes que condiciona a aquisição de todas as outras, e sem a ter por guia, o homem arriscaria de jamais alcançar sua meta, dado o número   considerável de dificuldades que deve afrontar e que, por ela, Deus lhe permite evitar.

Compreende-se também que a prudência-discrição possa ser considerada como um meio essencial da cura do homem. A prudência contribui a restaurar a saúde não somente às faculdades intelectuais, mas ainda às outras faculdades: em virtude de   seu papel de guia, em lhes indicando a via do bem, ela os ajuda   a se reorientar para Deus, a se exercer de novo em um sentido conforme a sua finalidade natural, e portanto a reencontrar a saúde.