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Boaventura Mente

terça-feira 29 de março de 2022

    
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    Prólogo
    1 Começo por invocar o primeiro Princípio, isto é, o eterno Pai  , «Pai das luzes», fonte de todo conhecimento (gnosis  ), de «toda dádiva   boa e de todo dom perfeito» (Tgo 1,17). Invoco-O por meio de seu Filho, Nosso Senhor Jesus Cristo  , para que pela intercessão da Santíssima Virgem Maria, sua Mãe, e do bem-aventurado   Francisco, nosso guia   e nosso pai, «ilumine os olhos» (Ef 1,17 ss) de nossa mente   e «dirija os nossos passos no caminho   da paz  » (Lc   1,79), «que ultrapassa todo sentimento  » (Filip 4,7). Esta é aquela paz que Nosso Senhor Jesus Cristo ensinou e deu (cf. Jo 14,27) e da qual nosso pai S. Francisco se fez novo apóstolo. O santo Patriarca, com efeito, anunciava-a ao princípio e ao final de suas pregações, desejava-a em toda saudação e suspirava em toda theoria   - contemplação a paz do êxtase como um habitante da Jerusalém celeste. É desta mesma paz que fala o pacífico Salmista — o rei Davi — quando diz que «se conservava em paz ainda com aqueles que odiavam a paz» (Sl 119,7). E acrescenta: «Pedi tudo aquilo que pode contribuir à paz de Jerusalém» (Sl 121,6). Ele sabia bem que o trono de Salomão não repousava senão sobre a paz, pois que escreveu também: «Estabeleceu sua morada   na paz e sua residência em Sião» (Sl 75,3).

2 A exemplo, pois, de nosso beatíssimo pai S. Francisco, eu — o seu sétimo sucessor na direção de sua Ordem  , ainda que indigno — anelava ardentemente por esta paz da alma  . Foi então que Deus me inspirou retirar-me ao Monte Alverne [1] como a um lugar de repouso e com o epithymetikon   - desejo de degustar lá a paz do coração  . E assim fiz [2] por aceno divino, trinta e três anos após a morte do beatíssimo pai e quase no mesmo dia de seu trânsito.

Lá, meditando sobre algumas ascensões de nossa alma para Deus, entre outras coisas, a lembrança do milagre acontecido sobre esta mesma montanha   [3] em favor do bem-aventurado Francisco — a visão   dum Serafim alado a modo do crucificado (cf. Is 6,2) — se apresentou ao meu espírito  . E logo me pareceu que aquela visão representava os arrebatamentos de nosso Pai e indicava o caminho que se devia seguir para chegar até os mesmos.

3 Com efeito, as seis asas do Serafim podiam muito bem simbolizar as seis elevações ou iluminações progressivas, pelas quais nossa alma, como que por certos degraus ou vias, dispõe-se à posse da paz através dos arrebatamentos extáticos da sabedoria   cristã [4]. Mas o caminho que nos conduz à paz não é outro senão o amor ardentíssimo a Cristo Crucificado.

Foi este amor ardente que, após ter arrebatado S. Paulo «até o terceiro céu» (2 Cor 12,2-4), transformou-o de tal modo em Cristo, que o fez exclamar: «Estou crucificado com Cristo. E já não vivo eu — é Cristo que vive em mim  » (Gál 2,16-20).

Este amor penetrou também tão vivamente a alma de Francisco, que seus sinais se manifestaram no soma - corpo, dois   anos antes de sua morte, como os estigmas sacratíssimos da Paixão.

As seis asas do Serafim representam, pois, as seis iluminações progressivas que, como escadas, têm seu ponto de partida no mundo sensível   e nos conduzem até Deus, no qual ninguém pode entrar senão por meio de Jesus Crucificado. Aquele, de fato, «que não entra pela porta   do aprisco das ovelhas mas sobe por outra parte, esse é um ladrão e salteador. Mas quem entra por esta porta penetrará e sairá e encontrará pastagens» (To 10,9). Por isso, S. João nos diz no Apocalipse  : Bem-aventurados os que lavam suas túnicas no sangue   do Cordeiro: eles terão direito à árvore da vida e à entrada pelas portas que dão acesso à Cidade" (Apoc 22,14). Isso significa que com a nossa theoria - contemplação não se pode chegar à Jerusalém celeste, a não ser se entrar pelo sangue do Cordeiro — que é como que sua porta.

Além disso, de modo algum torna-se apto   para as theoria - contemplações divinas que conduzem aos arrebatamentos do espírito aquele que, como o profeta Daniel, não fôr um homem   de desejos. Ora, duas coisas inflamam os nossos desejos: a euche   - oração — que arranca «gemidos do nosso coração» (Sl 37,9) — e a theoria - contemplação — que faz voltar direta e intensamente a nossa alma para os raios   da phos   - luz celeste.

4 Eu convido, pois, o leitor primeiramente ao gemido da euche - oração, feita em nome de Jesus Crucificado, cujo sangue nos purifica das manchas dos nossos pecados (Heb 1,3). Que não venha a crer que baste a anagnosis   - leitura sem a unção  , a melete - meditação sem a devoção, a indagação sem a admiração  , a prosoche   - atenção profunda sem a alegria   do coração, a atividade   sem a piedade  , a ciência sem a agape   - caridade, a nous - inteligência sem a tapeinophrosyne   - humildade, o estudo sem a graça   divina, o espelho   sem a phos - luz sobrenatural da divina sabedoria.

Às almas, portanto, que a graça divina já dispôs humildes e piedosas, às almas cheias de katanyxis - compunção e de devoção, ungidas «pelo óleo da alegria» divina (Sl 44,8), às almas ávidas da sabedoria divina e, inflamadas do epithymetikon - desejo de possuí-la, que queiram dedicar-se a glorificar, admirar e degustar a Deus, eu proponho as meditações que seguem. Advirto-lhes, porém, que pouco ou nada servirá o espelho que eu quero pôr sob seus olhos, se o espelho de seus espíritos não tiver sido previamente bem purificado e bem polido.

Ó homem de Deus, começa, pois, por escutar   as censuras de tua consciência  , antes de elevares teus olhos para os raios da sabedoria divina que se refletem nos seus espelhos. Não venha a acontecer que o esplendor desta phos - luz por demais viva te derrube numa fossa mais profunda de trevas.

5 Achei bom dividir este tratado em sete capítulos e dar-lhes um título prévio a cada um para facilitar a compreensão do seu conteúdo [5]. E agora te peço, leitor, que ponderes mais a intenção   do autor que sua obra, mais o conteúdo que as negligencias de estilo, mais a verdade que a elegância da frase, mais a vivência que a erudição.

Por isso, eu te rogo não percorreres rapidamente esta série de meditações, mas de lê-las com morosa reflexão  .



[1O Monte Alverne situa-se no Casentino, na Província de Arezzo (Itália). Êstc tinha sido doado a S. Francisco de Assis pelo seu amigo e admirador Orlando de Chiusi, cavaleiro morador do mesmo Casentino. Cf., a respeito, qualquer versão dos Fioretti de S. Francisco, Parte II, Consideração I.

[2Isto deve ter acontecido em 1259, se levarmos em conta que S. Francisco de Assis morreu na Porciúncula, na tarde do 3 de outubro de 1226.

[3A visão e a estigmatização de S. Francisco de Assis teve lugar a 17 de setembro de 1224. Narraram-na os vários biógrafos contemporâneos do Santo: cf. Tomás de Celano, Vita I S. Francisci (Vida I de S. Francisco), Pars II, Cap. 3; Legenda Trium Sociorum (Biografia de S. Francisco por três de seus companheiros), cap. 17 — e, obviamente, S. Boaventura, Legenda S. Francisci (Biografia de S. Francisco), cap. 13.

[4Seguindo a S. Agostinho, S. Boaventura «emprega sabedoria no sentido cristão de ideal do homem de procurar o conhecimento (gnosis) e a paz final». Nos textos que seguem, porém, sabedoria é tomada em sentido estrito. «Significa o conhecimento (gnosis) de Deus pela experiência (cognitio Dei experimentalis). Porque a sabedoria é também um dos dons do Espírito Santo, cujo ato é saborear a praotes - doçura de Deus. Tal sabedoria pertence verdadeiramente ao estado místico; começa em conhecimento (gnosis) e acaba em afeição, não havendo limite algum para sua intensidade». Esta sabedoria «e a meta da vida e da obra de S. Boaventura». Ph. Boehner, op. cit., pp.129-130, nota 1. Embora a denomine sob diferentes termos — paz (como aqui no Prólogo e no cap. VII, 1), arrebatamento místico (como também aqui no Prólogo e no cap. VII, 1), etc. — sempre tem idêntica conotação: «Um conhecimento (gnosis) experimental, uma percepção afetiva (gustus) da presença divina sob a praxis - ação do dom da sabedoria. Conhecimento concreto de Deus, ela O sente num efeito interior que lhe é próprio — e não por ele mesmo — isto é, no influxo da graça santificante e, num degrau mais elevado, nos ardores da agape - caridade, que realiza a união íntima entre Deus e a alma». Efrem Longpré, O.F.M., Bonaventure (Saint), em Dictionnaire de Spiritualité, t. I, col. 1795.

[5Nos títulos e nos desenvolvimentos de seus capítulos, S. Boaventura emprega, de preferência, o verbo «speculare» e seus derivados («speculatio», etc). Para evitar o equívoco que criaria a tradução literal desses termos («especular», «especulação», etc), em detrimento da conotação tipicamente bonaventuriana dos mesmos, nós optamos por traduções como «considerar» ou «consideração», «contemplar» ou «contemplação», «meditar» ou «meditação». Porque «todas estas expressões, quando empregadas no Itinerário, significam quase sempre a mesma coisa. O termo preferido é speculatio. É conscientemente considerado pelo Doutor Seráfico em conexão com speculum (espelho) e como função espelhante da mente que reflete todas as coisas desde a mais baixa até à mais elevada — os spectacula veritatis, os objetos espelhados da verdade. Pois a alma ou a mente é um espelho, como o são igualmente todas as criaturas. Esta função espelhante ou especulação do Itinerário — que tem relação com o sentido original de theoria — pode ser definidamente caracterizada pelas suas conotações». 1) Conota um óbvio elemento intelectual, no sentido duma «visão de Deus através dos e nos seus efeitos na ordem natural e sobrenatural e mesmo nas mais elevadas ideias de ser e bem (...)». (É o que S. Boaventura chama, no original, contuitio = contuição de Deus). 2) Conota também uma disposição mística: «é a contuição dum místico que está purificado e avança na direção ao mais perfeito degrau de contemplação». 3) Conota, enfim, «o estado de arrebatamento reverenciai que se apossa da alma e eleva-a além de si mesma, ao contemplar a inacessível grandeza e o esplendor das divinas manifestações da Verdade eterna». Ph. Boehner, op. cit., Introdução, pp.11-28.