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Fingers pointing towards the moon

Wei Wu Wei (FPM:1) – Realidade e Manifestação I

Aspectos de Não-Ser, 1 – Ação e Não-Ação, 1

segunda-feira 29 de agosto de 2022, por Cardoso de Castro

    

Não seria um de nossos erros elementares imaginar que «fazemos» coisas? Não parece igualmente provável que coisas nos «fazem»?

    

tradução

Aspectos de Não-Ser, 1

É menos o que se é, que deveria importar, do que o que não se é.

Adquirir conhecimento não deveria ser nossa primeira meta, mas ao invés nos livrar da ignorância — que é falso conhecimento.

As qualidades que possuímos nunca deveriam ser uma questão de satisfação, mas sim as qualidades que descartamos.

Se Caridade (compaixão  ), Simplicidade e Humildade   são desejáveis como atributos é porque dependem da eliminação de qualidades que foram descartadas.


Atrás do Condicionado é o Incondicionado. Atrás do Ser é o Não-Ser. Atrás da Ação é a Não-Ação (não a inação). Atrás de Mim   é Não-Mim. «Eu sou   Não-Eu, portanto Eu sou Eu: a Prajnaparamita   Sutra   dizia isto mil anos atrás. Transforme Eu em»Não-Eu«e então»Não-Eu" se tornará Eu. Só Deus   é Eu (Eu sou só Eu na medida que Eu sou Deus ou o Absoluto  , i.e. meu Princípio).

Não seria um de nossos erros elementares imaginar que «fazemos» coisas? Não parece igualmente provável que coisas nos «fazem»? Cremos que desempenhamos uma série indefinida de ações, mas a verdade pode ser que uma série indefinida de ações nos faz desempenhar. Pensamos que manipulamos eventos, mas não somos ao invés manipulados pelos eventos? Pensamos que vamos ao encontro daquilo que experimentamos, mas aquilo que experimentamos pode estar vindo ao nosso encontro. É talvez uma ilusão   que «vivemos»: nós somos «vividos».

Tome a vida como se dá, afirmamos — isto é ser/estar-ciente   [be aware] que é a vida que vem a nós e não nós que vamos à vida.

O que chamamos «vida» é somente coisas que acontecem. Uma personalidade patente (adquirida) reage à vida com estados de mente  . A personalidade latente deveria ser não afetada pela «vida»: não necessita «fazer» e está contente em «ser».

A Buda  -natura   é a natureza incondicionada.

Não cabe a nós buscar mas permanecer quieto, alcançar a Imobilidade não a Ação.

Existimos somente no instante  : não existimos como uma continuidade  , como supomos. Nossa aparente existência de dia a dia, ano a ano, é uma ilusão; mas existimos em cada instante entre o compasso do relógio do Tempo, cada instante, nenhum dos quais somos rápidos o suficiente para perceber.


Ação e Não-Ação, 1

Não-Ação [wu wei  ] no plano do ser torna-se, por articulação, Ação-Correta no plano de Existência.

Ação-Correta pode ser qualquer coisa, da violência até o que consideramos inação – pois a inação é inevitavelmente uma forma de ação.

A maioria de nossas ações são Ação-Incorreta. Somos macacos loucos eternamente fazendo coisas desnecessárias, obcecados com a necessidade   de «fazer», aterrorizados pela inação, glorificando «fazedores» quase que sem crítica, independentemente do estrago que causam, desprezando «não-fazedores», igualmente acriticamente, cegos à prosperidade que segue em seu despertar  , sendo o primeiro o resultado normal do que é a Ação-Incorreta, o último sendo o resultado normal da inação que é a Ação-Correta.

Mas o que consideramos ação é realmente reação, a reação de nosso ego artificial e impermanente ao não-ego, a eventos externos. Reagimos de manhã à noite: não agimos.

Penso que essa é a explicação da doutrina   taoista da Não-Ação. A explicação é necessária porque a tradução dos ideogramas chineses não revela a diferença   entre a Não-Ação que é numenal   e a inação que é fenomenal.

O dinamismo da inação em uma dada circunstância pode ser maior que o da ação na mesma circunstância. Inação que é dinâmica exige visão   e controle de si – pois a ação é mais fácil para nós do que a inação. É o dinamismo da inação que a identifica como Ação-Correta.


Somos educados para acreditar que em todas as circunstâncias   devemos “fazer”. Em vez de enfrentar a inação, passamos horas bebendo destilados ou consumindo narcóticos. Nisso somos apenas reagentes: “fazemos”, mas não sabemos ser.

A Ação-Correta deve ser normal para o homem   que realizou seu estado de Satori  , pois seu ego, dissolvido ou integrado, não está mais em condições de reagir. Em consequência, todas as suas ações devem ser Ação-Correta.

Mas a Ação-Correta deve ser possível para nós também em ambas as suas formas. A ação baseada na afetividade, positiva ou negativa, a ação baseada no raciocínio, dependente da comparação   dos opostos   e, portanto, relativa, envolvendo memória, manifestações do ego ilusório, dificilmente será correta – pois não é ação, mas reação.

Parece, portanto, que a Ação-Correta só pode ser espontânea – o produto da fração de segundo que supera a fraude   do Tempo.

Nota – O termo ‘Ação-Correta’ é apenas uma aproximação, como seria o francês ‘l’Action Juste’. Dois   termos adicionais poderiam segui-lo entre parênteses, a fim de desenvolver seu significado mais completamente. Essas palavras são ‘necessária’ e ‘real’. Pode-se ler, portanto, cada vez, ‘Ação-Correta, -Necessária, -Real’ e ‘Ação-Incorreta, -Desnecessária e -Irreal’. Mas o termo mais técnico   ‘Ação-Adequada (e -Inadequada)’, quando entendido, ainda é melhor.


A inação dinâmica mencionada acima é uma forma de Ação Adequada que no plano do Ser é Não-Ação. Mas a inação negativa, que é um modo de nossa ação habitual, e que é reação, participa da irrealidade disso. Tanto a ação quanto a inação, em nossas formas normais de manifestação, estão no plano dos fenômenos e não têm existência real.

Existem, portanto, duas formas de Ação, real e irreal, cada uma com um aspecto que consideramos como inação.

Original

Aspects of Not-Being, 1

It is less what one is that should matter, than what one is not.

To acquire knowledge should not be our first aim, but rather to rid ourselves of ignorance — which is false-knowledge.

The qualities we possess should never be a matter for satisfaction, but the qualities we have discarded.

If Charity (compassion), Simplicity, and Humility are desirable as attributes that is because they depend upon the elimination of qualities that have been discarded.

Behind the Conditioned is the Unconditioned. Behind Being is Not-Being. Behind Action is Non-Action (not inaction). Behind Me is Not-Me. ‘I am Not-I, therefore I am I’: the Prajnaparamita Sutra said it a thousand years ago. Transform I into ‘Not-I’ and then ‘Not-I’ will become ‘I’. Only God is I (I am only ‘I’ in so far as I am God or the Absolute, i.e. my Principle).

Does not one of our elementary errors lie in imagining that we ‘do’ things, for it seems to be equally probable that things ‘do’ us? We believe that we perform an endless series of actions, but the truth may be that an endless series of actions performs us. We think that we manipulate events, but are we not rather manipulated by events? We think we go to meet that which we experience, but that which we experience may come to meet us. It is perhaps an illusion that we ‘live’: we are ‘lived’.

‘Take Life as it comes,’ we say — that is be aware that it is life that comes to us and not we who go to life.

What we call ‘life’ is only things that happen  . The patent (acquired) personality reacts to ‘life’ with states of mind  . The latent personality should be unaffected by ‘life’: it need not ‘do’ and is content to ‘be’.

The Buddha-nature is the unconditioned nature.

It is not for us to search but to remain still, to achieve Immobility not Action.

We only exist in the instant: we do not exist as a continuity, as we suppose. Our apparent existence from day to day, year to year, is an illusion; but we exist in each instant between the ticking of the clock of Time, each instant not one of which are we quick enough to perceive.


Action and Non-Action, I

Non-Action on the plane of Being becomes, by articulation, Correct-Action on the plane of Existing.

Correct-Action may be anything from violence to what we regard as inaction - for inaction is inevitably a form of action.

The majority of our actions are Incorrect-Action. We are mad monkeys eternally doing unnecessary things, obsessed with the necessity of ‘doing’, terrified of inaction, glorifying ‘doers’ almost uncritically, regardless of the havoc they cause, scorning ‘non-doers’, equally uncritically, blind to the prosperity that follows in their wake, the former being the normal result of what is Incorrect-Action, the latter being the normal result of inaction that is Correct-Action.

But what we regard as action is really reaction, the reaction of our artificial and impermanent ego to the non-ego, to external events. We react from morning to night: we do not act.

That, I think, is the explanation of the Taoist doctrine of Non-Action. Explanation is necessary because translation from the Chinese ideograms does not reveal the difference between Non-Action that is noumenal and inaction that is phenomenal.

The dynamism of inaction in a given circumstance can be greater than that of action in the same circumstance. Inaction that is dynamic requires vision and self-control - for action is easier to us than inaction. It is the dynamism of inaction that identifies it as Correct-Action.


We are brought up to believe that in all circumstances we should ‘do’. Rather than face inaction we spend hours drinking spirits or consuming narcotics. Therein we are reagents only: we ‘do’ but we know not how to be.

Correct-Action should be normal to the man who has realised his state of Satori, for his ego, dissolved or integrated, is no longer in a position to react. In consequence all his actions should be Correct-Action.

But Correct-Action must be possible to us also in both its forms. Action based on affectivity, positive or negative, action based on reasoning, dependent upon the comparison of the opposites, and thereby relative, involving memory, manifestations of the illusory ego, is unlikely to be correct — for they are not action but reaction.

It would seem, therefore, that Correct-Action can only be spontaneous — the product of the split-second that outwits the fraud of Time.

Note — The term ‘Correct-Action’ is an approximation only, as would be the French ‘l’Action Juste’. Two additional terms could follow it in brackets in order to develop its meaning more fully. These words are ‘necessary’ and ‘real’. One may read, therefore, each time, ‘Correct, Necessary, Real Action’, and ‘Incorrect, Unnecessary, Unreal Action’. But the more technical term ‘Adequate (and Inadequate) Action’, when understood, is still better.


The dynamic inaction referred to above is a form of Adequate-Action which on the plane of Being is Non-Action. But negative inaction, which is a mode of our habitual action, and which is reaction, partakes of the unreality of that. Both action and inaction, in our normal forms of manifestation, are on the plane of phenomena and have no real existence.

There are, therefore, two forms of Action, real and unreal, each of which has an aspect which we regard as inaction.


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