Página inicial > Medievo - Renascença > Macario Apoftegmas II

Macario Apoftegmas II

terça-feira 29 de março de 2022

4. O Abade Macário, o Grande, foi ter com o Abade na montanha. Tendo batido à porta, este veio-lhe ao encontro e perguntou: «Tu quem és?» Respondeu: «Sou Macário». Antão fechou a porta, deixando-o fora. Notando, porém, a hypomone - paciência dele, abriu-lhe e disse-lhe com muita graça: «Há muito tempo desejava ver-te, pois ouvira falar de ti». Recebeu-o então hospitaleiramente, e restaurou-lhe as forças, pois estava muito cansado. Ao pôr do sol, o Abade Antão umedeceu para si algumas palmas; o Abade Macário disse: «Manda que também eu umedeça algumas palmas para mim». Aquele respondeu: «Umedece». Fez, então, um feixe grande, umedeceu-O; e ficaram os dois sentados desde o cair da noite, falando da soteria - salvação da alma e tecendo, de tal modo que a corda chegava a cair pela janela para dentro da gruta. De manhã, ao entrar, o Abade Antão viu a grande quantidade de cordame do Abade Macário e disse: «Muita força procede dessas mãos».

5. O Abade Macário dizia aos irmãos, a respeito da devastarão da Cétia: «Quando virdes uma cela construída perto do pântano, sabei que a sua devastação está próxima; quando virdes árvores, a devastação estará às portas; quando virdes meninos, tomai os vossos mantos e retirai-vos».

6. Disse também, para exortar os irmãos: «Aqui veio um menino possesso do demônio, com sua mãe. Ora o pequenino disse a esta: ‘Levanta-te, ó velha, vamo-nos daqui’. Ela respondeu: ‘Não posso andar’. A criança retrucou então: ‘Eu te carregarei’. Fiquei estupefato pela maldade do demônio, que os queria afugentar daqui».

7. Contava o Abade Sisoé: «Quando eu estava na Cétia com Macário, subimos sete nomes (NT: "Nomes" está em lugar de "homens" ou "irmãos". Sete companheiros, pois, saíram com o Abade Macário) para fazer a messe com ele. E eis que diante de nós se achava uma viúva a colher espigas, a qual não cessava de chorar. Então o ancião chamou o proprietário do campo e disse-lhe: ‘Que tem esta velha, pois está sempre chorando?’ Aquele respondeu: ‘É que o marido dela tinha bens de outrem em depósito, e morreu repentinamente sem lhe dizer onde os pusera; agora o proprietário do depósito quer levar a ela e aos filhos como escravos’. O ancião falou: ‘Dize-lhe que venha ter conosco, onde estamos repousando por causa do calor’. Quando a mulher chegou, o ancião perguntou-lhe: ‘Por que estás assim sempre a chorar?’ Ela respondeu: ‘Meu marido morreu depois de ter aceito o depósito de alguém, e, ao morrer, não disse onde o colocara’. O ancião intimou-a: ‘Vem, mostra-me onde sepultaste teu marido’. E, tomando os irmãos consigo, seguiu a mulher. Chegando eles ao referido lugar, disse a ela o ancião: ‘Retira-te para tua casa’. A seguir, fizeram euche - oração, e o ancião chamou o morto, dizendo. ‘Ó tal, onde colocaste o depósito alheio?’ Aquele respondeu: ‘Está escondido em minha casa, sob o pé da cama». O Abade concluiu: ‘Dorme de novo até o dia da anastasis - ressurreição’. Vendo isto, os irmãos caíram de medo aos pés dele, o qual lhes disse ‘Não foi por causa de mim que isto aconteceu, pois nada sou; mas foi por causa da viúva e dos órfãos que Deus o fez. Isto é grandioso: Deus quer que a alma esteja sem pecado; e, se ela é tal, recebe tudo o que pede’. O Abade se foi, pois, e anunciou à viúva onde se achava o depósito. Esta o retirou, entregou-o ao dono, libertando assim os seus filhos». E todos os que ouviram isto, deram glória a Deus.

8. O Abade Pedro contou, a respeito de São Macário, que foi ter uma vez com um anachoresis - anacoreta e o encontrou doente; perguntou-lhe, então, o que queria comer, pois nada tinha em sua cela. Aquele respondeu: «Uma broinha de farinha». Em consequência, o corajoso Abade não hesitou em ir à cidade de Alexandria e satisfazer assim o doente. O admirável é que o feito a ninguém se tornou notório.

9. Referiu também que o Abade Macário vivia em simplicidade e inocência com todos os irmãos; alguns então perguntaram-lhe: «Por que te comportas assim?» Respondeu: «Doze anos servi ao meu Senhor para que me desse esta graça; e todos vós me aconselhais que a rejeite?»

10. Diziam do Abade Macário que, quando se permitia certo lazer em companhia dos irmãos, estabelecia para si o seguinte princípio «Se houver vinho, bebe por causa dos irmãos, e, em troca de um cálice de vinho, deixa de beber água durante o dia». Ora os irmãos ofereciam-lhe vinho para restaurar-lhe as forças. O ancião o aceitava com alegria para mortificar-se. O seu discípulo, porém, que sabia o que se dava, dizia aos irmãos: «Por amor do Senhor, não lhe ofereçais; senão, ele se macerará na cela». Informados disso, os irmãos não lhe ofereciam mais vinho.

11. Quando certa vez o Abade Macário se dirigia do pântano para a sua cela, carregando palmas, eis que lhe foi ao encontro na estrada o demônio, trazendo uma foice. Este quis espancá-lo, mas não teve vigor; disse-lhe então: «Procede muita força de ti, ó Macário, pois não te posso agredir. Eis que, tudo o que fazes, também eu o faço; tu jejuas, eu também; tu vigias de noite, eu também não durmo; há uma só coisa em que me vences». O Abade Macário perguntou: «Qual é?» Aquele respondeu: «A tua tapeinophrosyne - humildade; e é por causa desta que não te posso agredir».

12. Alguns dos Padres perguntaram ao Abade Macário: «Por que é que, quer comas, quer jejues, teu soma - corpo é descarnado?» Respondeu o ancião: «O lenho que revira os gravetos em combustão, é todo consumido pelo fogo. Assim também se o homem purifica a sua mente pelo phobos - temor de Deus, o próprio phobos - temor de Deus consome o soma - corpo dele».

13. Em dada ocasião o Abade Macário foi da Cétia a Terenutim, e entrou no templo para dormir. Ora lá havia antigos esqueletos de pagãos, dos quais ele tomou um, colocando-o na cabeça como travesseiro. Os demônios, vendo a coragem do Abade, foram acometidos de pleonexia - inveja; e, querendo amedrontá-lo, puseram-se a chamar um nome de mulher, dizendo: «ó tal, vem conosco ao banho!» Outro demônio respondeu debaixo dele como que dentre os mortos: «Tenho um estrangeiro em cima de mim, e não posso ir». O ancião, porém, não se aterrou; ao contrário, com muita coragem batia o esqueleto dizendo: «Levanta-te, e vai para as trevas, se podes». Ao ouvir isto, os demônios clamaram em alta voz: «Tu nos venceste». E fugiram confusos.

14. A respeito do Abade Macário o Egípcio, narravam que, certa vez, se pôs em viagem a partir da Cétia, carregando cestos; cansou-se, porém, e sentou-se no caminho; a seguir, orou dizendo: «Deus, tu sabes que não tenho forças». E logo foi encontrado junto ao rio.

15. Havia no Egito alguém que tinha um filho paralítico. Levou-o à cela do Abade Macário,

e, tendo deixado o menino em prantos à porta, retirou-se para longe. Ora o ancião, abaixando-se, viu a criança e perguntou-lhe: «Quem te trouxe cá?» Respondeu o menino: «Meu pai atirou-me aqui e foi-se embora». O Abade, então, mandou: «Levanta-te, e vai-te juntar a ele». E eis que o menino foi imediatamente curado, levantou-se e foi ter com o pai. Assim voltaram ambos para casa.

16. O Abade Macário o Grande dizia aos irmãos na Cétia, quando despedia a assembleia da igreja: «Fugi, irmãos». Um dos anciãos perguntou-lhes certa vez: «E para onde, além deste deserto, havemos de fugir?» Macário então colocou o dedo sobre a boca e disse: «Fugi isto». A seguir, entrou na cela, fechou a porta e sentou-se.

17. Disse o Abade Macário: «Se, ao repreender alguém, és movido à orge - ira, satisfazes a própria pathos - paixão. Não é perdendo a ti mesmo que salvaras os outros».


Ver online : Philokalia