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Hausherr Nomes

terça-feira 29 de março de 2022

Nomes escriturários e patrísticos
Pluralidade de Nomes
"Um nome é um termo que sumariza e exprime uma qualidade específica do nomeado." Orígenes   Origenes Peri Euches   - TRATADO DA ORAÇÃO
2 O nome é uma expressão em que se condensa e descreve a qualidade específica da coisa nomeada.

Por exemplo, o Apóstolo   Paulo tem características especiais: da alma, pela qual é o que é; da mente, pela qual pode contemplar certas realidades; do corpo, pelo qual é indivíduo único.

O caráter particular destas propriedades é pessoal e não pode convir a outros (entre os seres não há nenhum que não difira de Paulo em algum aspecto). Isso é indicado pelo nome de Paulo.

Quando os homens mudam de algum modo as qualidades próprias, mudam também de nome, segundo as Escrituras. Assim, quando mudou a qualidade de "Abrão", o mesmo se chamou "Abraão" (cf. Gn 17,5). Quando mudou "Simão", foi chamado de "Pedro" (cf. Mc 3,16). Quando "Saulo" deixou de perseguir a Cristo, foi chamado "Paulo" (cf. At 13,9). Quanto a Deus, que é sempre invariável e imutável, não há senão um nome, dado no livro do Êxodo (3,14) : "Aquele-que-é", e algum outro semelhante.

Todos nós imaginamos algo sobre Deus e formamos ideias sobre ele, mas não podemos entender o que ele é em si mesmo. Na realidade, são poucos e, se me é permitido dizer, são pouquíssimos entre os poucos, os que entendem as suas propriedades.

A justo título, aprendemos que existe em nós uma noção correta de Deus, se podemos perceber que ele é criador, providência, juiz, aquele que escolhe e que abandona, julga alguém digno de prêmio ou de castigo, segundo cada qual o mereça. Por estas e semelhantes atuações de Deus, caracteriza-se, por assim dizer, a qualidade própria de Deus que, a meu ver, se exprime na Sagrada Escritura com o nome de Deus.

O melhor comentário dessa longa dissertação de Origenes é D. Mollat em um comentário de João (III, 18): Quem crê nele não é condenado; mas quem não crê já está condenado, porquanto não crê no nome do unigênito Filho de Deus. (Jo 3:18). Mollat nota que o "nome" é “um semitismo para pessoa”.

O Senhor Jesus, filhod e Maria, tem muitos nomes. Um autor anônimo do século VII nos legou uma lista de nomes escriturários do Salvador (187 nomes), e afirma: alguns dizem que o nome próprio do Salvador é Sabedoria, outros que Verbo; e que os demais nomes não são nomes próprios mas metafóricos (tropikos). Aqui estão os primeiros nomes: Sabedoria, Verbo, Filho de Deus, Palavra de Deus, Luz do Mundo, Verdadeira Luz, Ressurreição, Caminho, Verdade, Vida, Portão, Pastor, Messias, Cristo, Jesus, Mestre (didaskalos).

Nesta lista o nome "Jesus" aparece em décimo-quinto lugar. Em uma lista seguinte dos nomes da Theotokos ele começa com Maria e conclui com o número 54: "Theotokos própria e verdadeiramente".

O compilador desse florilegium dogmático, que Diekamp chama de “a mais extensiva e valiosa de todas que possuímos”, não fornece nenhuma argumento para autores modernos que clamam que a Oração de Jesus pode consistir somente da palavra “Jesus” posto que este é o coração e a essência da oração assim como o núcleo da Cristandade Ortodoxa e sua vida espiritual. Estava o compilador anônimo não familiar com a “filosofia do nome”? Se sim, A hipótes de Diekamp sobre o autor cai por terra. Ele atribui este florilegium a Anastasius o Sinaíta, mas os sinaítas preservariam a filosofia do nome mais que qualquer um, posto que o Sinai é uma área semita e a Oração de Jesus tem grande importância para espiritualidade sinaíta.

De qualquer modo o problema é: se há uma filosofia do nome qual seria o nome seria adotado entre tantos nomes do Salvador? A resposta é importante não somente para história ou pré-história da Oração de Jesus, mas em geral para a história da devoção ao nome de Jesus.
Nomes de Jesus nos Evangelhos
Para distinguir Jesus de outros com mesmo nome, seus contemporâneos, se designava a cidade donde veio, sua origem, assim "Jesus de Nazaré". Assim Pilatos colocou sobre a cruz este nome. Não há referência a Jesus por este simples nome ou por Senhor Jesus nos Evangelhos. O vocativo, no entanto, ocorre em Marcos e Lucas apenas pelos demônios falando através dos lábios de alguém possuído, o chama Jesus de Nazaré, em Mc 1,24 e Lc 4,34. O demoníaco gadareno em Mc 5 usa o título “Jesus, filho de Deus Altíssimo” (Mc 5,7 e Lc 8,28). A parte os possuídos somente os cegos, Bartimaeus, chamam Jesus por seu nome próprio, adicionando “Filho de Davi” (Mc 10,47; Lc 18,38). Este é o texto defendido pelos proponentes da Oração de Jesus. Em outro incidente em Lucas, os dez leprosos chamam à distância, “Jesus, Mestre, tende piedade de nós” (Lc 17,13). De acordo com algumas versões o bom chefe diz, “Jesus, lembre de mim” (Lc 23,52), mas uma variante significativa usa “lembra de mim” sem o nome de Jesus, enquanto outra pões “Jesus” no dativo, “Ele disse para Jesus”. A mulher canaanita chama, “Tem piedade de mim, Senhor, filho de Davi” (Mt 15,22).

Deste breve levantamento parece que apenas os demônios e pessoas fora da círculo dos discípulos chamavam Jesus por seu nome, e geralmente acompanhado de um título especial. Assim um dia Jesus teria dito a seus discípulos próximos: “Já vos não chamarei servos, porque o servo não sabe o que faz o seu senhor; mas tenho-vos chamado amigos, porque tudo quanto ouvi de meu Pai vos tenho feito conhecer.” (Jo 15:15). No entanto, os discípulos mesmos não ousavam chamá-lo pelo primeiro nome; talvez a ideia nunca lhes ocorreu. E o Senhor parece aprovar, pois diz: “Vós me chamais Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque eu o sou.” (Jo 13:13) Mestre e Senhor não são sinônimos, e podem ser entendidos seja o sentido nominativo como nomes que os discípulos usavam quando falando sobre Jesus e no sentido vocativo como nomes que usavam falando a Jesus. O evangelista provavelmente tinha os dois sentidos em mente, e isto corresponde ao uso geral que encontramos nos evangelhos. Por duas vezes os evangelhos registram uma frase falada por Maria a seu filho, mas ela não chama “Jesus”. Quando garoto é encontrado no tempolo entre os doutores, ela diz, “Meu filho” (teknon, Lc 2,48). No Bodas de Cana ela simplesmente diz, “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3), sem qualquer nome.

Como referência na narrativa dos apóstolos ou primeiros discípulos, depois da ascensão, é feito uso de seu nome histórico e terreno, "Jesus".

De todos os nomes usados para designar o Salvador, o nome "Jesus" é o mais simples, o mais curto e o mais distante de conotações de grandeza e honra; quando há necessidade destas conotações se adiciona "Kyrios" ou "Didaskalos".
No restante do Novo Testamento
1 Os judeus que opunham a “heresia” cristã e os pagãos que não sabiam muito a seu respeito, falam com ou sem afetações, de “Jesus”, “Jesus de Nazaré” ou “um certo Jesus”.

2 Quando os apóstolos fala a adversários ou estranhos adotam seu próprio vocabulário, ou seja, dizem “Jesus”.

3 Crentes não usam simplesmente “Jesus”. Lucas somente quando fala como historiador e nas primeiras páginas dos Atos dos Apóstolos. Quando se dirigindo a outros demonstram sua convicção complementando o nome de Jesus com um título de fé e de respeito. O mais comum é “Cristo”. Este é um ato de fé na ressurreição.

Quanto ao título Kyrios (Senhor), esta é uma forma comum de endereçamento polido e respeitoso. Quando depois da ascensão, o título Kyrios ocorre nas palavras e escritos dos apóstolos e primeiros cristãos, ele tem o sentido incisivo, quase surpreendente, dado por Pedro em seu discurso ao judeus de todas as nações que estavam reunidos em Jerusalém: “Saiba, pois com certeza toda a casa de Israel que a esse Jesus, a quem vós crucificastes, Deus o fez Senhor e Cristo.” (Acts 2:36)

O hino incomparável registrado na Epístola aos Filipenses expressa sentimentos perfeitamente familiar aos fieis do tempo. Paulo usava-a para recomendar paz, humildade e caridade na comunidade cristã, depois do exemplo de Cristo:

Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. Por isso, também Deus o exaltou soberanamente, e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; Para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, E toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai. (Fil 2:6-11)

Os primeiros cristãos sabiam o que diziam quando atribuíam o nome Kyrios a Jesus seu mestre. A versão grega das Escrituras que lhes era familiar usava este termo na tradução do hebraico Adonai e YHWH. O que é dito do Kyrios YHWH no Antigo Testamento é dito do Kyrios Iesous Christos no Novo Testamento. Bousset aponta que chamar o nome do Senhor é uma característica distintiva dos cristãos. É equivalente ao nome próprio num tempo onde a palavra christianos era ainda raro. Chamar o nome do Senhor compreendido como Jesus Cristo é um sinal de fé indiscutível nele como Messias e Filho de Deus. O fato é que até o começo do século II o nome Ieschoua ou Iesous era muito comum entre os judeus. A simples expressão Jesus Cristo é também um ato de fé; especificamente fé que Jesus de Nazaré é o Messias.

Por todas as razões indicadas — o fato de Kyrios ser o nome divino, Christos o nome messiânico e Jesus um nome ordinário comum no meio judeu-cristão — pode ser dito que os primeiros cristãos usavam o nome Cristo mais frequentemente que o nome Jesus. Eles sabiam pelo próprio Mestre que não era suficiente dizer “Senhor, Senhor”, a fim de ser um verdadeiro discípulo, e sabiam por instinto e experiência que dizer simplesmente “Jesus” não era suficiente para constituir um ato de fé.
Os Padres Apostólicos