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A Vida Contemplativa

Watts (VC:I-2) – Pecado

Parte 1 - II — A Dádiva da União

terça-feira 29 de março de 2022, por Cardoso de Castro

    

Celso Mayer

O pecado   original — o orgulho  , a recusa em dar-se a Deus  , o amor a si próprio, o egocentrismo (a colocação de sua própria pessoa  , e não Deus, no centro   do Universo  ) — imediatamente confronta-nos com o abismo  , a oposição, existente entre nós mesmos e tudo o mais, tudo aquilo que não nós mesmos. Quando o homem   tenta usurpar o trono de Deus, toda a criação, todos os outros homens se empenham em derrubá-lo. Assim, de acordo com o mito   do Éden  , tão logo Adão   provou do fruto   proibido, tornou-se consciente da sua nudez   e da sua solidão  , e Deus lançou sobre ele uma maldição que era simplesmente uma descrição do inevitável conflito entre o homem egocêntrico e a natureza. «Maldita é a terra   por tua causa  ; em fadiga   tirarás dela o sustento todos os dias da tua vida. Ela te produzirá também espinhos e abrolhos.» (Gênesis 2:17 e 18).

A consequência do orgulho é, portanto, o medo, medo de perder o seu próprio e amado   ser. Deus e a natureza parecem conspirar para privar  -nos de nós mesmos; o primeiro do amor e o outro da obediência a Deus. E o medo de perdê-los nos leva a apegar-nos a nós mesmos com todas as forças e, no esforço, a praticamente nos estrangularmos até ficarmos sem respiração. Mas o medo é sofrimento  , o medo ameaça o nosso orgulho, e gostaríamos de não ter nem medo, nem sofrimento. Os santos nos dizem que o medo pode ser dominado pela fé e pelo amor, desde que nos entreguemos inteiramente a Deus. Procuramos seguir esse conselho, mas o orgulho persiste sendo o motivo. Entregamo-nos a Deus para nos proteger, para nos satisfazer não apenas com a posse do poder e glória   de Deus, mas também do Seu amor e humildade  . A ambição deixa de ser terrena para ser espiritual, mas é sempre ambição.

Encontramo-nos, assim, em um círculo vicioso. Nossa natureza é egoísta e não mais a podemos mudar  , assim como também não podemos levantar-nos pelo nosso próprio cinto. Somos o «homem errado» e, como dizem os textos chineses sobre a vida espiritual, «quando o homem errado usa os meios certos, estes se comportam de modo errado». [1] Ao tentar escapar   ao medo, incorremos no círculo vicioso de ficar com medo do medo — de preocupar-nos porque estamos preocupados por estarmos preocupados. Ao tentar escapar do orgulho, ficamos orgulhosos da nossa humildade, e ao tentar escapar ao pecado, arrependemo-nos porque o sentimento   de culpa fere a nossa vaidade. Em consequência, todas as nossas tentativas de vida espiritual resultam em simples imitações porque nos falta aquilo que torna a vida espiritual possível e significativa — a união   com Deus, que não possuímos por tê-la refugado. E como e por que aceitá-la? Retornamos, assim, uma vez mais, ao orgulho.

O egoísmo é como tentar nadar sem se apoiar na água, esforçando-se por flutuar movimentando as pernas; o corpo, em consequência, se torna tenso e a pessoa afunda como uma pedra  . A natação requer um certo relaxamento, um certo abandono de si mesmo   à água; a vida espiritual, analogamente, exige o abandono da alma   a Deus. A filosofia hindu refere-se ao egoísmo como sankhocha, uma contração ou tensão da alma; e se é difícil o relaxamento das tensões superficiais de nervos irritados e da insônia, é impossível o relaxamento, por qualquer ação nossa, de uma tensão que se manifesta no próprio íntimo do nosso ser. Todo esse estado   de egoísmo inevitável, misturado com o orgulho e o medo consequente, toda essa inaptidão de dar-nos sem reservas a Deus, é o que a Igreja   chama de estado de queda do homem — servidão, cativeiro, em relação ao pecado de Adão. As pessoas que desenvolveram um grau profundo de autoconhecimento são tão agudamente conscientes dessa situação   que se deixam, frequentemente, dominar por total desespero  .

A Igreja ensina formalmente que somos absolvidos do pecado de Adão pela Encarnação  , a qual consiste na assunção da nossa natureza humana pelo Logos  , o Filho   de Deus, que como Jesus   de Nazaré vive e morre de uma forma em que essa natureza humana está perfeitamente sujeita à vontade divina. Em virtude dessa submissão perfeita, a natureza humana de Jesus se transfigura e é totalmente informada pela Divindade e, reunindo-se à própria Vida, ressuscita e ascende ao céu. A Encarnação tem efeito para nós, homens, porque a natureza humana de Cristo é a nossa própria natureza e, ainda, porque Cristo introduziu uma nova vida, um novo poder, nessa natureza e veio torná-la capaz de uma perfeita submissão a Deus. Tornamo-nos possuidores desse poder pela nossa incorporação à nova raça   humana que Ele iniciou, a raça   que é a Sua própria humanidade divinizada e que se estende ao Seu corpo místico  , a Igreja. Em Cristo, Deus fez pelo homem aquilo que o homem não podia fazer por si mesmo: Deus, como homem, ofereceu nossa natureza humana ao Pai em um sacrifício perfeito que concretizou a união do homem com Deus, fazendo-nos herdeiros de Sua própria vida eterna e Seus filhos adotivos. A mente   moderna, em geral, acha tais considerações quase que inteiramente vazias, por parecerem introduzir uma complexidade mitológica na vida espiritual que, muito embora possa ter um significado algo profundo, é mais um aborrecimento que uma ajuda  , e também por envolverem o estudo e a aceitação de uma quantidade de pormenores históricos que não temos condição de verificar. Certamente, se Deus é de fato amor e deseja a nossa salvação   com todo o Seu ser, poderia ter concebido nossa redenção de uma forma menos tortuosa.

É óbvio, portanto, que no passado   esta mesma história foi da mais alta importância para inumeráveis almas. A razão, como vimos, é que em certos estágios do seu desenvolvimento e em certos níveis de sua natureza o homem somente pode apreender a realidade espiritual em termos de mythos. Entretanto, quando se faz necessário compreender a realidade nua e crua que se esconde por trás do símbolo, este se apresenta confuso e sem importância; quando, porém, a realidade interior pode ser vista, o símbolo se mostra novamente lógico e significativo, embora sua função se modifique. Impõe-se, portanto, a descoberta do significado da Encarnação.

Original

The original sin—pride, refusal to give ourselves to God, self-love, putting ourselves in God’s place at the center of the universe—immediately confronts us with the gulf, the opposition, between ourselves and all that is not ourselves. When man tries to usurp the throne of God, all creation, all other men, strive to drag him down. Thus in the Eden myth, as soon as Adam had eaten the fruit he became aware of his own loneliness and nakedness, and God pronounced upon him the curse which was simply a description of the inevitable conflict between self-centered man and nature. “Cursed is the ground for thy sake; in sorrow shalt thou eat of it all the days of thy life; thorns also and thistles shall it bring forth to thee.”

The consequence of pride is therefore fear, fear of losing one’s beloved self. God and nature seem to conspire together to deprive us of ourselves, the one out of love and the other out of obedience to God, and in fear of the loss we cling to ourselves with all our might, strangling the breath out of our bodies in the effort. But fear is suffering; fear threatens our pride; we would like to be without fear and suffering. The saints tell us that fear may be overcome by faith and love, by giving ourselves wholly to God. And so we try to follow their advice, but pride remains the motive. We give ourselves to God in order to protect ourselves, in order to flatter ourselves not only with the possession of God’s power and glory, but also of his love and humility. Ambition ceases to be worldly and becomes spiritual; but it is still ambition.

Thus we find ourselves in a vicious circle. Our nature is selfish, and we can no more change this nature than we can lift ourselves up by our own belts. We are the “wrong man,” and as is said in a Chinese treatise on the spiritual life, “When the wrong man uses the right means, the right means work in the wrong way.” Trying to escape fear, we run into the vicious circle of being afraid of fear—worrying because we worry because we worry; trying to escape pride we become proud of our humility; trying to escape sin we repent because guilt injures our self-conceit. Hence all our attempts at spiritual life end up as imitation and monkey business because we do not have the one thing that makes spiritual life possible and meaningful—union with God. And we do not have it because we have refused it. How are we to accept it? Why do we want to accept it? It always comes back to pride.

Egoism is like trying to swim without relying on the water  , endeavouring to keep afloat by tugging at your own legs; your whole body becomes tense, and you sink like a stone. Swimming requires a certain relaxation, a certain giving of yourself to the water, and similarly spiritual life demands a relaxation of the soul to God. Thus Hindu philosophy speaks of egoism as sankhocha, a contraction or tension in the soul, and if it is hard to relax the superficial tensions of jumpy nerves and insomnia, it is impossible to relax by any contrivance of our own a tension which grips the very core of our being. This entire state of inescapable selfishness, blended of pride and consequent fear, this total inability to give ourselves without reservation to God is what the Church terms the fallen state of man—bondage under the sin of Adam. Those who have developed any profound degree of self-knowledge are so acutely aware of this predicament that it brings them often to utter despair.

The formal teaching of the Church is that we are released from the sin of Adam by the Incarnation, which is the assumption of our human nature by the Logos, God the Son, who as Jesus of Nazareth lives a life and dies   a death wherein this human nature is perfectly surrendered to the divine will. As a result of this perfect surrender, the humanity of Jesus is transfigured and wholly informed by the Godhead  , and, united with Life itself, it rises from the grave and ascends into heaven. The Incarnation is of effect for us men because Christ’s human nature is our nature, and because Christ introduced a new life, a new power, into that nature which made it capable of perfect surrender to God. We become possessors of that power by incorporation into the new human race which he began, the race which is his own divinized humanity extended in his Mystical Body the Church. In Christ, God did for man what man could not do for himself: God as man offered our human nature to the Father in a perfect sacrifice which effected the union (At-one-ment) of man with God, making us heirs of his own eternal life and his adopted sons. Generally speaking, the modern mind   finds statements such as these almost wholly meaningless. They seem to bring a mythological complexity into the spiritual life which, even though it may have some deep meaning, is more of a nuisance than a help, and to involve the study and acceptance of a mass of historical details which we are in no position to verify. Surely, if God is in fact love and wills our salvation with his whole being, he could have contrived our redemption in a less tortuous way.

It is obvious, however, that in the past this same story has been of the highest significance for innumerable souls. The reason, as we have seen, is that at certain stages of his development and at certain levels of his nature man can only grasp spiritual reality in terms of mythos. But when the time comes for him to understand the naked reality behind the symbol, the symbol itself appears confusing and unessential. When, however, the inner reality is seen, the symbol again appears logical and meaningful although its function changes. We have therefore to discover the meaning of the Incarnation.


Ver online : ALAN WATTS


[1Jung e Wilhelm, The Secret of the Golden Flower. Londres e Nova York, 1931, pág. 70.