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O mundo como vontade e como representação. Segundo Tomo.

Schopenhauer (MVR2:683-684) – a vida é um negócio

Suplementos Livro IV Capítulo 46

terça-feira 14 de setembro de 2021, por Cardoso de Castro

[SCHOPENHAUER  , Arthur. O mundo como vontade e como representação. Segundo Tomo. Tr. Jair Barboza. São Paulo: Unesp, 2015, p. 683-684]

Tudo na vida nos ensina que a felicidade terrena está destinada a desvanecer-se ou a ser reconhecida como uma ilusão. Os dispositivos para isso encontram-se profundamente na essência das coisas. Assim, a vida da maioria das pessoas é breve e calamitosa. As pessoas comparativamente felizes o são na maioria das vezes apenas aparentemente, ou são, como ocorre no caso das pessoas de vida longa, raras exceções, cuja possibilidade teria de existir, — ao modo de isca. A vida apresenta-se como um engodo constante, tanto nas pequenas quanto nas grandes coisas. Se ela promete algo, não cumpre a palavra; a não ser para mostrar quão pouco valioso era o objeto desejado: assim, somos iludidos ora pela esperança, ora pelo objeto de nossa esperança. Se a vida nos deu algo; então foi para pegar algo em troca. A magia da distância nos mostra paraísos que, como ilusões de ótica, somem quando nos lançamos a eles. Em conformidade com isso, a felicidade está sempre no futuro, ou ainda no passado, o presente podendo ser comparado a uma pequena nuvem escura que o vento sopra sobre a planície ensolarada: tudo o que se encontra antes e depois da nuvem é claro, só a nuvem lança sempre uma sombra. Por consequência, o presente é sempre insuficiente, o futuro, incerto, o passado, irrecuperável. A vida, com as suas contrariedades de cada hora, diárias, semanais, anuais, contrariedades pequenas, médias, grandes, com as suas ilusórias esperanças e os seus acidentes que desfazem todos os cálculos, porta tão claramente a marca de algo que deveria nos desgostar que é difícil conceber como não reconhecemos isso, e nos deixamos enganar pensando que a vida existe para agradecidamente ser gozada, e o ser humano, para ser feliz. Mas, antes, aquela contínua ilusão e desilusão, bem como a inalterável índole da vida, apresentam-se como algo previsto e calculado para despertar a convicção de que nada merece o nosso esforço, a nossa atividade, as nossas lutas, e que todos os bens são vãos, que o mundo vai à bancarrota em todos os cantos, que a vida é um negócio que não cobre os custos do investimento; — e que com isso a nossa vontade pode operar uma viragem.


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