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Nothomb: Adama

domingo 24 de julho de 2022

    

O relato do Jardim do Éden começa por um preâmbulo que serve de transição ao relato da Criação em seis dias que o precede, e ao mesmo tempo parece tudo retomar a zero  . A transição é marcada nas primeiras frases por uma sequência de “erets” empregados no mesmo sentido geral e com a mesma frequência que no primeiro relato:

O dia que YHWH Deus   fez uma terra   e céus nenhum arbusto selvagem existia ainda sobre a terra e nenhuma erva selvagem brotava ainda pois YHWH   Deus não tinha feito chover sobre a terra.

Mas após esta evocação do “tohu-bohu” inicial do primeiro relato, não é a luz   que faz sua aparição como no primeiro relato, mas o Homem  . Aparição impessoal a princípio, pois a palavra “adam” não está aí precedida como por toda parte do artigo definido, e está por outro lado marcada por uma negação, de modo que equivale a “ninguém”. Mas lido literalmente o texto continua assim:

E nenhum homem para cultivar a adam   mas um vapor se elevava da terra e irrigava toda a superfície da adama.

Todas as bíblias traduzem a “adama” desta última passagem por “solo”, o que parece, a primeira vista, tão lógico quanto coerente. Se este relato introduz uma nuance de sentido no interior da noção   geral de “terra” que assume exclusivamente, com uma exceção apenas, “erets” no primeiro relato, é aparentemente para aí distinguir   como em francês, em agricultura, a “terra” do “solo”.

Outra questão relevante, explicada por Paul Humbert, é que nas traduções onde lemos, “YHWH Deus tomou o Homem e o depositou no jardim   para cultivá-lo e guardá-lo” (Gen 2,15), lê-se em hebraico, onde “jardim” (hbr. gan) é masculino  , assim escrito: “YHWH Deus tomou o Homem e o depositou no jardim para cultivá-la e para guardá-la”.

  • O feminino indicaria que se refere a “adama” (feminino em hebreu).

No centro   do relato a palavra “jardim” com todas suas conotações — lugar de abundância  , de delícias, sem fadiga   e sem morte — carrega todas as conotações contrárias a palavra “adama” e a ela se opõe, a ponto de excluí-lo absolutamente de todas as combinações com ele. Lá onde se encontra jardim, aí não se pode ter “adama”, e reciprocamente. São lugares antinômicos.

Esta oposição entre jardim e adama se verifica ao longo de todo relato. Nada penetra no jardim proveniente da adama que dele não foi previamente separado, extraído, arrancado. Sucessivamente o Homem, as árvores, os animais   são ditos modelados ou brotados “a partir da adama” (min haadama) antes de ser admitido no jardim, as árvores e os animais sendo por concordância do Homem, que só foi formado com vistas ao jardim. Mais adiante se verá está singularidade natural do Homem que o predispões ao jardim enquanto ela o opõe à adama. Inversamente, quando o Homem é expulso do jardim, é a adama, seu contrário, que ele é remetido.

O jardim simboliza a leveza  , o prazer sem vergonha   nem saciedade e a liberdade total, a adama simboliza a pena  , a limitação  , o sofrimento  , em uma palavra pesadume. Assim deverá ser traduzida esta palavra-chave pois trata do Homem Imortal.

A palavra hebraica traduzida por “vapor” — não utilizada em nenhuma outra parte da Bíblia   — é composta de duas letras que são as duas primeiras de “adam”, como na palavra “adam” (Adão) é composta de três letras, que são as três primeiras de “adama”, que conta quatro letras. Portanto temos duas frases onde um jogo   de espelhos ou de consonâncias se dá, certamente não involuntariamente, tornando a passagem de difícil tradução. Compreende duas proposições que assim podem ser decifradas:

  • A primeira: “O Homem só existe para cultivar o pesadume (adama), que soa como uma verdade geral (o verbo está no presente  ), seja no contexto do preâmbulo: “Não havia aí Homem para cultivar o pesadume”.
  • A segunda proposição se associa à primeira como consequência; ela constata que de alguma maneira o pesadume (adama) ligado ao Homem (adam) como uma de suas virtualidades, ainda não existe, mas um elemento   designado por duas letras que são as primeiras da palavra “adam” e saído da terra (que participa por sua massa   da pesadume) mantém na espera (irriga) toda a aparência (a superfície) do pesadume, que é sem dúvida fático ou potencial neste estágio. O pesadume é aquilo de que se deve sair para entrar no jardim, e o Homem não “o cultivará”, logo ele não existirá, a não ser que o homem por um tempo aí tenha sucumbido como à mortalidade e será exilado do jardim. Traduzindo:
E não havia homem para cultivar o pesadume só um fluido se elevava da terra e fazia espelhar toda a aparência do pesadume.